sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ÓRBITA LITERÁRIA 220: Turismo Literário Percursos e Trajetos em Cidades Narradas


ÓRBITA LITERÁRIA 220:
Turismo Literário
Percursos e Trajetos em Cidades Narradas

Painelista: Ernani Viana da Silva Neto *

“O passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado.”
Ítalo Calvino | As Cidades Invisíveis – 1972

Existe uma série de estudos que se dedicam a mensurar as motivações turísticas. Dentre estas há uma, em especial, que possui características que moldam o que hoje conhecemos como Turismo Cultural.

Entre os nichos que compõem o segmento do Turismo Cultural, encontra-se o Turismo Literário. A Literatura pode ser entendida, também, como uma expressão da Cultura. A partir dela, pode vincular-se aos gestos, as relações e os sentidos de um lugar que não o seu de residência. A obra literária, ao ser tomada enquanto um recurso cultural (YUDICE, 2004), pode ser, por excelência, a mediadora entre a exposição do autor e suas influências, a fruição do leitor e a construção dos percursos de uma cidade narrada. Neste sentido a viagem consuma a relação ficção-realidade que o Turista-Leitor (SIMÕES, 2002) povoou em seu imaginário enquanto Leitor-Turista.

Este Órbita irá abordar obras que constituíram um sentindo de Brasil, a partir do olhar dos Viajantes, que influenciaram o velho e o novo continente por estas narrativas. Como a figura do Flâneur migra para o atual Turista Cultural e/ou Viajante. Como são elaborados as rotas e os roteiros literários no Brasil e no mundo e as possibilidades destas ações em Caxias do Sul e Região.

* Ernani Vianna Neto é Turismólogo e Pesquisador Cultural. Ministrou nos meses de agosto e setembro de 2017 a Oficina de Produção Literária Turismo Literário – Percursos e trajetos em cidades narradas. http://lattes.cnpq.br/3774936945702244 | ernaniviana@gmail.com | (54) 98120 – 8496

SERVIÇO - Órbita Literária 220
Painelista: Ernani Viana da Silva Neto
Tema: Turismo Literário - Percursos e Trajetos em Cidades Narradas
Dia: 25 de setembro de 2017, segunda-feira, às 20 horas
Local: Livraria e Café Do Arco da Velha, Rua Dr. Montaury, 1570, Centro, Caxias do Sul – RS

Tel.: (54) 3028 1744

domingo, 17 de setembro de 2017

Semana Municipal do Turismo de Caxias do Sul - 2017



A Secretaria Municipal do Turismo (Semtur) realiza a Semana Municipal do Turismo 2017 de 25 a 29 de setembro com o tema “Turismo Caxias: desvendando potencialidades”. O objetivo é despertar um novo olhar turístico para Caxias do Sul, valorizando a união de três grandes forças para o sucesso no desenvolvimento: o poder público, a iniciativa privada e a comunidade.

A edição de 2017 traz novidades. Entre elas, a descentralização das atividades, que ocorrem na Universidade de Caxias do Sul e no Centro de Cultura Ordovás. A comunidade está convidada a participar de palestras sobre a importância de políticas públicas, gastronomia, cultura, identidade e diversidade que envolvem o turismo em Caxias do Sul.

Uma exposição das fotografias participantes do Concurso Fotográfico Turístico - 8º Clic também integra a Semana, assim como um Free Tour, passeio gratuito a pé, nos arredores da Praça Dante Alighieri e na Igreja São Pelegrino.

Inscrições pelo site: http://bit.ly/2xAUpt4

PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

Segunda-feira (25/09/2017)
Local: Bloco 46 - UCS

19h:
• Abertura oficial da Semana Municipal do Turismo de Caxias do Sul 2017;
• Abertura da exposição do Concurso Fotográfico Turístico – 8º Clic.

UM NOVO OLHAR PARA O TURISMO DE CAXIAS DO SUL

20h:
• Palestra: “Gestão e Conhecimento em Destinos Turísticos” - Prof. Me. Michel Bregolin I UCS;
• Apresentação do estudo dos dados do fluxo de turistas em Caxias do Sul – Secretária do Turismo Turª Renata Aquino Carraro.

ATRAÇÃO CULTURAL: Ária Trio

Terça-feira (26/09/2017)
Local: Sala Florense/Bloco M - UCS

A IMPORTÂNCIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A GESTÃO DO TURISMO

18h30:
• Palestra: “Os benefícios tributários no campo do turismo” - Prof. Me. Jefferson Roberto Panarotto | UCS.

20h30:
• Palestra: “O Plano Diretor e as Zonas de Interesse Turístico de Caxias do Sul/RS” - Secretário Municipal do Planejamento – Fernando Mondadori, Diretora da Coordenadoria de Planejamento e Gestão Territorial da Secretaria de Planejamento de Caxias do Sul - Rosana Guarese, e Diretor de Planejamento da Secretaria Municipal do Turismo de Caxias do Sul - Enzo Calabró.


Quarta-feira (27/09/2017) - DIA MUNDIAL DO TURISMO
Local: Sala de Cinema Ulysses Geremia - Casa de Cultura Ordovás

10h às 17h:
• Free Tour no Centro da Cidade - Praça Dante Alighieri com Associação dos Guias de Turismo de Caxias do Sul;
• Free Tour na Igreja São Pelegrino com Associação dos Guias de Turismo de Caxias do Sul.

19h:
“GASTRONOMIA: TRADIÇÃO E INOVAÇÃO EM CAXIAS DO SUL”

• Mesa redonda mediada pela Prof. Dra. Susana de Araújo Gastal, com a participação da Prof. Me. Rosana Peccini, do Sr. Orivaldo Zanotto, sócio-proprietário da Galeteria Alvorada, do Arthur Calderaro, proprietário do Fontana Burguer e de Marcos Felippi, proprietário da Felippi’s Lanches.

ATRAÇÃO CULTURAL


Quinta-feira (28/09/2017)
Local: Bloco 46 - UCS

19h:
“AFINAL, QUAL É A NOSSA IDENTIDADE?”

• Bate-papo com Prof. Dra. Susana de Araújo Gastal e Prof. Dr. Caetano Sordi, ambos da Universidade de Caxias do Sul.


Sexta-feira (29/09/2017)
Local: Sala de Cinema Ulysses Geremia - Casa de Cultura Ordovás

TURISMO E SUA DIVERSIDADE

14h:

16h:
• Bate-papo: “TURISMO DE EVENTOS: COMO FUGIR DA SAZONALIDADE” com a presença de Guilherme Martinato, fundador e idealizador do Bloco da Velha e de Toyo Bagoso, criador e organizador do Mississipi Delta Blues Festival.
  
Venha desvendar Caxias. Participe! 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Áudio da palestra: "O QUE GANHAMOS COM A CULTURA?"


Realizada no dia 5 de setembro de 2017, às 20h, no UCS Teatro.

Captação: Ernani Viana Neto

Nuccio Ordine é professor de Literatura Italiana na Universidade da Calábria, pesquisador do Centro Italiano para Estudos da Renascença Italiana da Universidade de Harvard, da Fundação Alexander von Humboldt e professor convidado em diversos institutos e universidades nos Estados Unidos e na Europa.

Reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes pesquisadores da obra de Giordano Bruno, escreveu três livros sobre esse grande filósofo italiano do Renascimento: "A cabala do asno", "O umbral da sombra" e "Contra o evangelho armado". Escreveu também "Teoria do riso e teoria da novela no século XVI", "Três coroas para um rei (sobre Henrique III)", "Clássicos para a vida" e "A utilidade do inútil", que teve lançamento, na Universidade de Caxias do Sul, em março de 2016, durante conferência do autor sobre "A utilidade dos saberes inúteis". No Brasil, Nuccio Ordine dirige com Luiz Carlos Bombassaro a edição das Obras Italianas de Giordano Bruno, publicadas pela EDUCS

Fonte: UCS - Universidade de Caxias do Sul

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RESENHAS
Cadernos de Pesquisa v.46 n.161 p.896-901 jul./set. 2016

AS CIÊNCIAS HUMANAS SERVEM PARA ALGUMA COISA?


ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil: um manifesto. Tradução
de Luiz Carlos Bombassaro. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte (p. 12)

Provavelmente, todo estudante ou profissional ligado às ciências humanas, em algum momento, foi questionado sobre o sentido de sua atividade, ou melhor, sobre a “utilidade” de seu ofício. Nada mais justo, pois os contribuintes evidentemente têm interesse em saber os motivos para financiar atividades não ligadas diretamente à produção. Artes, filosofia, história, geografia, literatura, entre uma série de outros campos do saber, contribuem em alguma medida para a sociedade? Não seria mais prudente alocar os recursos dessas áreas para a formação de técnicos, engenheiros, médicos, tidos como criadores de conhecimentos e práticas “úteis”? Tais formas de pensar, tão difundidas em diversas regiões do planeta hoje em dia, guardam semelhança com uma série de questionamentos surgidos em outros períodos e épocas. Da mesma forma, uma série de respostas contrárias a elas foi formulada e divulgada ao longo dos séculos, inclusive por notáveis pensadores. Esse é justamente o tema do importante livro A utilidade do inútil: um manifesto, de Nuccio Ordine, lançado na Itália em 2013 e publicado este ano no Brasil.

Filósofo de formação e professor de literatura na Universidade da Calábria, Ordine é um renomado especialista no período do Renascimento, especialmente em Giordano Bruno. Entre algumas de suas obras, estão O umbral da sombra (Perspectiva, 2009), A cabala do asno (Educs, 2006) e Contro Il Vangelo armato (2009). No livro resenhado aqui, bastante politizado, como admite o autor e indica seu subtítulo, avulta o pano de fundo de uma Europa, com a exceção da Alemanha, cada vez mais ciosa de investir em cultura e artes diante do turbilhão econômico. O leitor brasileiro, entretanto, não terá nenhuma dificuldade em identificar semelhanças com o caso brasileiro, de tradição de parcos investimentos nessas áreas, os quais, aliás, são constantemente cortados sob o questionamento de sua “utilidade” – sem contar a diminuição da presença das disciplinas humanísticas nos currículos escolares. Em contraposição a tudo isso, Ordine indica como as artes e o pensamento humanístico, num paradoxo apenas aparente, são de importância crucial ou “úteis” não apenas para a prosperidade material, como também para a defesa de uma vida minimante civilizada nas mais diversas sociedades. Não se trata de obra sistemática, como ele próprio afirma, mas de recortes de obras de grandes autores por ele acumulados ao longo de sua carreira, acompanhados de seus comentários. De forma geral, trata-se de defender a utilidade “daqueles saberes cujo valor essencial está completamente desvinculado de qualquer fim utilitarista” (p. 9).

Um primeiro passo nesse sentido é afirmar que os saberes inúteis podem oferecer uma resistência à noção de utilidade dominante, a qual está destruindo a memória do passado, as disciplinas humanísticas, as línguas clássicas, a educação, a livre pesquisa, a fantasia, a arte, o pensamento crítico, a dignitas hominis, o amor e a verdade. Ordine nunca chega a nomear ou conceituar a orientação política subjacente a essas transformações. No entanto, o cerne da crítica volta-se contra a corrente neoliberal de pensamento e ação. Gostemos ou não desse termo, sem dúvida carregado de paixões na luta política, ele ao menos aponta para uma orientação política voltada para a diminuição drástica do papel do Estado na economia e a concorrência acirrada entre os indivíduos, com seu corolário de valorização extrema das posses materiais. Na contracorrente, Ordine argumenta que o saber desinteressado é um instrumento capaz de se opor às leis do mercado, na medida em que, ao desafiar os princípios dominantes do lucro, pode ser compartilhado sem empobrecer quem o transmite e quem o recebe; resultando, ao contrário, em enriquecimento mútuo.

Na primeira parte do livro, o autor discute algumas partes da obra de notáveis escritores e poetas, de modo a sugerir o papel da literatura na desnaturalização das mais diversas formas de utilitarismo. Um exemplo muito significativo é o de uma passagem das Cartas a um poeta, de Rainer Maria Rilke. Nela, este assevera que ser artista “não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore, que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão” (p. 18). Em geral, nada mais distante do contexto universitário atual, que, em escala global, submete disciplinas com forte teor artístico ao ritmo da produção fabril, à ética do publish or perish. Em artigo de grande relevância, Claudine Haroche igualmente destaca que o trabalho de pensamento requer tempos mortos, momentos inúteis, pausas: tarefa a ser realizada pelas pessoas em sua condição de indivíduos, em sua parte inavaliável (HAROCHE, 2011, p. 675). Contudo, no contexto contemporâneo, as avaliações constantes e dos mais variados tipos comprometem profundamente o juízo crítico e a reflexão. A competição exacerbada das sociedades neoliberais e o alto grau de desconfiança interpessoal por elas engendrado produzem mecanismos de controle que, sob o princípio da eficiência, atingem em cheio a autonomia intelectual (HAROCHE, 2011, p. 661). Nesse sentido, Ordine pensa que clássicos da literatura podem sugerir lógicas e caminhos alternativos ao difundido utilitarismo dos dias atuais.

Em sua opinião, as atividades consideradas supérfluas propiciam não apenas a crítica a tal tendência, como também oportunidades para se cultivar horizontes utópicos. Por exemplo, nas obras de Thomas More, Tommaso Campanella e Francis Bacon, o dinheiro, o ouro, a prata e todas as atividades destinadas ao ganho são desprezadas. Nas célebres ilhas imaginárias construídas por esses intelectuais, toda forma de propriedade individual é atacada, em favor do interesse coletivo. Para Ordine, tais reflexões podem ser estímulos para se pensarem modos de combater as desigualdades sociais do mundo contemporâneo. É claro que tal potencial existe e deve ser levado em consideração. Como contraponto, talvez valha a pena lembrar que as atividades supostamente irrelevantes também podem engendrar ideias voltadas para a perpetua - ção dos referidos desequilíbrios. Não há um caminho único. De qual - quer forma, eliminá-las significaria comprometer a busca de caminhos alternativos.

No livro, os exemplos de pensadores que se colocaram, ao longo de diversas épocas e em diferentes localidades, contra a associação entre conhecimento e ganho material são abundantes: Aristóteles, Dickens, Boccaccio, Baudelaire, Kant, Montaigne, Lorca, Cervantes, o sábio chinês Zhuangzi, entre outros. No caso de Dante e Petrarca, tais autores criticavam severamente a vinculação das letras a objetivos ligados ao acúmulo monetário; prezando, ao contrário, o amor desinteressado pela sabedoria. É de se perguntar se esse pressuposto está ligado a um ethos medieval contrário à comercialização do conhecimento, conforme expresso no seguinte aforismo: “O conhecimento é um dom de Deus, e por isso não pode ser vendido” (BURKE, 2003, p. 136). Só um estudo aprofundado poderia fornecer uma resposta satisfatória a essa questão. De todo modo, é importante ressaltar que não é possível estabelecer uma essência para a noção de utilitarismo, como parece fazer Ordine. As respostas dos referidos autores à presença do ganho material em seu ofício parecem estar vinculadas a problemas específicos das sociedades e épocas nas quais cada um viveu. Em suma, elas são historicamente construídas; porém, certamente, releram ou reinventaram tradições críticas de épocas anteriores.

Algo parecido acontece com os defensores da “utilidade” dos conhecimentos. Um marco dessa corrente de pensamento é, sem dúvida, John Locke, um contraexemplo de Ordine. Em sua obra Alguns pensamentos sobre a educação (1693), ele criticou fortemente a imposição do estudo de versos a estudantes apáticos com o objetivo de torná-los modestos produtores de rimas. Ademais, atacou os pais que permitiam aos seus filhos cultivar o talento poético, em detrimento da busca pelo crescimento dos bens pessoais; segundo Ordine, argumentos tão semelhantes por ele ouvidos da parte de muitos dos pais de seus alunos: “Mas o que o meu filho vai fazer com um diploma de Letras?”. Nada casual, em se tratando de um autor central para a releitura do liberalismo hoje em dia.

A segunda parte do livro é dedicada a críticas contundentes ao contexto universitário europeu. Num momento de amplo corte de verbas para a educação e a pesquisa, o filósofo italiano considera que muitas universidades europeias se tornaram ou estão se tornando verdadeiras empresas. Não só pelo fato de tratarem os alunos como clientes, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos e no Canadá, como também em razão de produzirem diplomados em massa sem uma suposta devida qualidade. Em sua opinião, a tendência tem sido tornar as aulas mais superficiais, com o argumento de deixá-las mais “agradáveis”; e os métodos de avaliação não exigiriam grandes esforços dos estudantes. Tal crítica mereceria um cuidado especial, pois – ainda que seja desejável buscar sempre o aprofundamento daquilo que se ensina –, um endurecimento irrefletido das práticas pedagógicas, em determinados contextos e situações, não poderia levar justamente ao esvaziamento das salas de aula e à elitização do ensino?

Entretanto, muito pertinente é a sua crítica à burocratização dos professores universitários. Preencher formulários, fazer relatórios para alimentar as estatísticas, preparar projetos para obter escassos recursos, participar de intermináveis assembleias e reuniões de colegiado, eis as tarefas que consomem a maior parte do tempo desses profissionais, cada vez menos providos de tempo para exercer sua curiositas na pesquisa e no ensino – os professores universitários brasileiros passam por drama semelhante, provavelmente mais grave. Em contraposição, Ordine lembra que centros de excelência em pesquisa foram fundados sob o princípio da busca desinteressada de conhecimento, como o Collège de France e o Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Neste último caso, o autor comenta o texto do pedagogo norte-americano Abraham Flexner, de 1937, um dos mais importantes fundadores do Instituto – belo artigo anexado ao final do livro. Idealizado como centro distante de fins utilitaristas, tal instituição abrigou nomes como o de Albert Einstein. Ademais, como argumenta Flexner sobre os fundamentos que deveriam nortear o Instituto, inventos outrora considerados como despidos de uti - lidade, como as ondas eletromagnéticas descobertas e analisadas por James Clerk Maxwell e Heinrich Hertz (supostamente sem motivações práticas), teriam o potencial de se tornarem tecnologias de uso tido universalmente como essencial, a exemplo do rádio. Seria de se questionar se as vidas humanas, em geral e de acordo com circunstâncias histórias específicas, comportam tamanha pureza em seus idealismos; não se - riam elas, ao contrário, palco de constante tensão entre idealismos e objetivos utilitaristas? Se essa hipótese tiver algum fundamento, o que se deveria lamentar, nos últimos tempos, é a crescente sobreposição dos últimos sobre os primeiros.

Mas como, em tempos de crise, criar condições distanciadas do utilitarismo para que o conhecimento floresça e frutifique? Ordine chega a ser autoritário nesse ponto, pois advoga que “seria necessário impor” um discurso proferido por Victor Hugo na Assembleia Constituinte francesa, em 1848, aos membros dos governos europeus. Uma outra forma de abordar a questão, a meu ver, seria apontar que o referido texto poderia ser mais frequentemente mencionado no debate público. No discurso, o célebre escritor, na iminência de que os ministros cortassem recursos destinados à cultura, inflama-se ao defender que, exatamente no momento em que uma crise sufoca uma nação, é preciso duplicar os recursos voltados para o saber e o ensino, a fim de impedir que a sociedade seja tragada pela ignorância. Em outras palavras, esta última é colocada em condição inferior àquela das necessidades materiais.

Num cenário em que se questiona o ensino das línguas clássicas, da filologia, da paleografia, em que as obras clássicas são cada vez menos publicadas pelas editoras, em que museus e bibliotecas são fechados, em franca ameaça à memória, as palavras de Victor Hugo têm muito a dizer. Por sua vez, os saberes humanísticos, a literatura e a educação, segundo Ordine, podem contribuir para o desenvolvimento das ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância, solidariedade e bem comum. Eis a utilidade do inútil. O livro em questão, mesmo que simplifique algumas questões, levanta problemas de fundamental importância para o debate público em diferentes sociedades, não sendo casual o fato de já ter sido traduzido para várias línguas. No Brasil, ele é publicado no turbilhão de uma crise econômica e política, em meio à qual, sem entrar neste momento nas questões da legitimidade ou ilegitimidade do atual governo, drásticos cortes de gasto na educação e na cultura estão sendo colocados em marcha. Dessa forma, sua leitura é recomendada não apenas a estudantes, acadêmicos e educadores, como também aos políticos e eleitores em geral.

REFERÊNCIAS

BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

HAROCHE, Claudine. O inavaliável em uma sociedade de desconfiança. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 37, n. 3, p. 657-676, set./dez. 2011. Acesso em maio 2016.

Jefferson José Queler
Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp –, Campinas, São Paulo, Brasil; professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto – Ufop –, Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil jeffqueler@hotmail.com