quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Giuseppe Tartini e o Trinado do Diabo

Gosto de música clássica e instrumental, não por ser um exercício de erudição, mas pelas emoções e sentimentos que elas em mim provocam. Sempre que há a oportunidade de prestigiar um concerto ou apresentação lírica tento me fazer presente. Dependendo da programação de um concerto, podes perceber em seu acervo de experiências o deslocar das sensações de saudosismo e melancolia para uma alegria impulsiva, ensimesmar-se, e no momento seguinte, nas reviravoltas entre as peças apresentadas, podes encontrar-se diante de uma batalha épica, onde, na interação com o movimento das sonoridades executadas, numa sensação similar ao que os jogos virtuais proporcionam, podes escolher entre a fuga, o embate ou simplesmente observar a história sem palavras que o compositor quis contar.

Hoje quero  apresentar o compositor e violonista italiano Giuseppe Tartini (1692 – 1770) que foi o primeiro a possuir um Stradivarius. Os itens que sobreviveram aos dias atuais, estima-se que dos 1300 instrumentos elaborados por este famoso luthier 500 ainda estejam em circulação, chegam a valer entre vinte a quarenta milhões de Dólares devido a rara sonoridade que possuem. Ele que foi quase contemporâneo do também italiano e violinista Nicolo Paganini (1782 – 1840) sendo o último, conhecido por ter utilizado este instrumento ao esgotamento das possibilidades de execução, e ambos guardarem similidades por ter relações estreitas com o próprio Diabo. Isso mesmo, as relações entre esta entidade e a música é muito anterior as associações entre ela e o heavy metal.

Giuseppe Tartini

Giuseppe Tartini relatou a Jérôme Lalande no livro "Voyage D’un Francoise em Italie", publicado em 1799, o que o fez compor sua mais famosa sonata a “Sonata in G minor ''Devil's Trill Sonata'', O Trilo, ou Trinado, do Diabo. Segue seu relato em uma livre tradução:

“Uma noite sonhei que realizava um pacto com o diabo. Tudo aconteceu de acordo com os meus desejos. Dei-lhe o meu violino, para ver se ele conseguiria me apresentar algumas belas melodias, e, para meu espanto, eu ouvi uma sonata tão singularmente bonita, executada com tanta superioridade e inteligência que eu nunca conceberia qualquer coisa que pudesse por em paralelo." Do original: “Une nuit, je rêvais que j’avais fait un pacte, et que le Diable était à mon service.  Tout me réussissait au gré de mes désirs, et mes volontés étaient toujours prévenues par mon nouveau domestique. J’imaginai de lui donner mon violon, pour voir s’il parviendrait à me jouer quelques beaux airs; mais quel fut mon étonnement lorsque j’entendis une sonate si singulièrement belle, exécutée avec tant de supériorité et d’intelligence que je n’avais même rien conçu qui pût entrer en parallèle.”


Esta noite de sonho aconteceu em seu autoexílio na cidade de Ancona, situado na “panturrilha” Italiana. Resolveu isolar-se, para desenvolver composições e refinar-se técnicamente, ao ver uma apresentação do Compositor e Violonista italiano Francesco Maria Veracini (1690 – 1798) e sentir-se defasado em suas habilidades. Embora esta seja sua melhor composição, ele a considera uma versão grosseira da executada pelo demônio em seu campo onírico.


O interessante é notarmos, sem querer estabelecer um padrão pois este texto não se trata de uma pesquisa e sim de uma livre escrita, como associamos a seres exteriores a nossa própria genialidade. Freud fala que acessamos as manifestações do inconsciente em quatro situações: No Ato Falho, no Chiste, No Sintoma e nos Sonhos. Os sonhos, segundo Freud, é o caminho mais rico e fértil das manifestações do inconsciente, pois é nela que os desejos se desamarram e formam uma linguagem compreensível no consciente, se desocultam. E como associamos a poderes sobrenaturais impuros o domínio da perfeição técnica, o carisma e a sedução de público.

Voltando para nosso compositor em questão, ele afirmara que largaria seu instrumento musical caso tivesse outro meio para subsistir, pois não conseguia lembrar-se de toda obra a ele apresentada. Talvez esta seja a grande pegadinha agônica dos infernos.


Você pode estar se perguntando: E se isso for verdade? Prefiro ficar com a passagem “Senhora, onde há música não pode haver coisa má.” de Dom Quixote por Miguel de Cervantes. Escute a música, se tiver coragem.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Leminski: O "Samurai-malandro" - Dinarte Albuquerque Filho


Adquiri esta cópia na Feira do Livro de Caxias do Sul deste ano na banca da EDUCS - Editora da Universidade de Caxias do Sul. Primeiramente por ser fã de Leminski e segundo pela pesquisa. O texto imprime um ritmo que faz o leitor absorver o conteúdo em pouco tempo, e, como bônus, nos situa no contexto da produção lírica e poética deste gênio que foi Leminski.
A presente obra é de 2009 e foi resultante da Pesquisa "Paulo Leminski : um estudo sobre o rigor e o relaxo em suas poesias" de 2005 que examinou a trajetória da poesia de Paulo Leminski, buscando estabelecer os termos do humor, da pesquisa metalingüística e do eu-lírico, e que não deixa de exibir traços da poesia marginal dos 70. Seu autor, Dinarte Albuquerque Filho, é professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e do Centro Tecnológico Universidade de Caxias do Sul (CETEC). Autor dos livros Romã (ed. do autor, 1991), Um olhar sobre a cidade e outros olhares (ed. do autor, 1996), e 3 (Liddo Editora, 2006).  A dissertação dele pode ser acessada ao clicar aqui!