domingo, 24 de maio de 2015

Então queres ser um escritor?*



*Charles Bukowski (Tradução: Manuel A. Domingos)


Se não sai de ti a explodir, apesar de tudo, não o faças.

A menos que saia sem perguntar do teu coração, da tua cabeça, da tua boca das tuas entranhas,
não o faças.

Se tens que estar horas sentado a olhar para um ecrã de computador ou curvado sobre a tua
máquina de escrever procurando as palavras, não o faças.

Se o fazes por dinheiro ou fama, não o faças.

Se o fazes para teres mulheres na tua cama, não o faças.

Se tens que te sentar e reescrever uma e outra vez, não o faças.

Se dá trabalho só pensar em fazê-lo, não o faças.

Se tentas escrever como outros escreveram, não o faças.

Se tens que esperar para que saia de ti a gritar, então espera pacientemente.

Se nunca sair de ti a gritar, faz outra coisa.

Se tens que o ler primeiro à tua mulher ou namorada ou namorado ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

Não sejas como muitos escritores, não sejas como milhares de pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e pedante, não te consumas com auto-devoção.

As bibliotecas de todo o mundo têm bocejado até adormecer com os da tua espécie.

Não sejas mais um.

Não o faças.

A menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio, não o faças.

A menos que o sol dentro de ti te queime as tripas, não o faças.

Quando chegar mesmo a altura, e se foste escolhido, vai acontecer por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

Não há outra alternativa.

E nunca houve.

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