terça-feira, 27 de janeiro de 2015

#MOVA #ForaMellinaFreitas


CARTA DE REPÚDIO À NOMEAÇÃO DE MELLINA FREITAS PARA A SECULT/AL

Ao Governador eleito Renan Filho.

Senhor Governador,

O MOVA, Movimento Cultural Alagoano, repudia de modo veemente a indicação de Mellina Freitas para a Secult/AL, Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas. As razões do repúdio dividem-se em duas frentes: ética e técnica. Esta carta tem como objetivo primordial deixá-lo ciente dessas razões e apontá-las de modo a esclarecer por que sua indicação política representa, acreditamos, um retrocesso para a prática cultural alagoana.

A indicação de Mellina Freitas constitui um terrível paradoxo ético, pois, conforme nos mostram a mídia local e o trabalho do GECOC, Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas, a administração da Senhora Mellina Freitas no município de Piranhas, no período de 2008 a 2012, é acusada de inúmeras irregularidades relacionadas a desvios de verbas e licitações fraudatórias, estando, pois, sob investigação da justiça. Tais irregularidades são apontadas pelo Promotor de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, coordenador do GECOC, indicado para a Secretaria da Defesa Social, o que nos leva a uma terrível coincidência: teremos uma Secretária de Estado sob investigação de outro Secretário, o que, por si só, já configura uma situação constrangedora, digna das piores administrações públicas. Diante disso, a nomeação de Mellina Freitas choca a imprensa, a comunidade artístico-cultural e a sociedade em geral, que reagem com estarrecimento à notícia.

Vale salientar, Senhor Governador, nossa constante busca de diálogo com o governo eleito. Em encontros realizados nos últimos dias, representantes dos diversos segmentos culturais iniciaram uma tentativa de dialogar com a equipe de transição do Governo do Estado de Alagoas, com a intenção de sugerir um perfil de política cultural capaz de corrigir as deficiências históricas do setor, bem como traçar um parâmetro para auxiliar ao senhor na escolha do gestor público na área da cultura.

Acreditamos na legítima escolha democrática. Assim, foi inclusive enviada uma lista tríplice com nomes representativos desse perfil para apreciação da equipe de transição. Consciente de que a distribuição de cargos quase sempre está ligada a acordos políticos firmados durante a campanha, o Movimento Cultural Alagoano já contava com a possibilidade de não ter suas propostas atendidas. No entanto, a escolha de um gestor com histórico tão escandaloso de improbidade administrativa, além de flagrante inexperiência em gestão cultural, torna a nomeação uma afronta à comunidade artístico-cultural e à sociedade em geral.

No que diz respeito à razão técnica de nosso repúdio à indicação de Mellina Freitas para a Secretaria de Estado da Cultura, lembramos que o Senhor Governador, ao anunciar via Facebook o nome da nova ocupante da pasta, apresentou uma breve descrição de sua trajetória. A senhora Mellina Freitas é apresentada como escritora, Bacharel em Direito e membro da Academia Maceioense de Letras, tendo publicado dois livros. Entre outras realizações da ex-Prefeita de Piranhas, são expostas a fundação de um grupo de chorinho, outro de xaxado e a aquisição de uma canoa. Não desmerecendo as ações, apelamos ao bom senso: elas não gabaritam a senhora Mellinna Freitas a gerenciar uma Secretaria de Estado da Cultura. Nenhuma das realizações atribuídas a Mellina Freitas constitui o que se pode classificar como POLÍTICA CULTURAL.

A administração de políticas públicas ligadas à cultura envolve uma visão ampla sobre cultura, um diálogo com segmentos diversificados da cena cultural e comprovada atuação em busca de melhorias coletivas na área, bem como prática e conhecimento mínimos acerca do sistema Nacional de Cultura do Governo Federal, da formação de conselhos de cultura e do patrimônio cultural (material e imaterial) de Alagoas.

Reiteramos nossa escolha pelo diálogo com o poder público para contribuir na construção de uma política cultural democrática e efetiva em nosso estado.

O Movimento Cultural Alagoano é composto por mais de 100 grupos representativos de diversos segmentos artístico-culturais de todas as regiões do Estado, que assinam esta carta.

Atenciosamente,
Artistas, técnicos e militantes culturais alagoanos.

ACESSE e ASSINE a petição você também: http://goo.gl/strWos

Para saber mais sobre as acusações atribuídas a Mellina Freitas pelo Ministério Público Estadual, acesse os links:





#ForaMellinaFreitas


Blitz MOVA no Maceió 200 anos de Verão - 10 de janeiro de 2015


O MOVA é um Grupo de artistas, técnicos e militantes organizados por uma secretaria de cultura capacitada à prática de POLÍTICA CULTURAL e ética. 

Veja o que eles dizem:


Mote ruim que embolou um movimento bom: da secretária ficha suja que acionou um movimento pela decência para com a coisa pública.

Ernani Viana*

O atual debate sobre a organização da pasta pública da cultura brasileira relaciona-se aos eixos de fortalecimento da cidadania, gestão dos ganhos econômicos dos seus agentes e valorização e difusão dos bens simbólicos das localidades de representação. Sendo assim, este momento exige do gestor a habilidade profissional de realizar interfaces com demais setores da sociedade para que essa agenda avance em seus propósitos. Do mesmo modo que essa dinâmica cria sujeitos capazes de conduzir suas produções culturais, ela também os deixa aptos a escolher quem melhor os representa, já que entende-se que quem comandará determinada pasta administrativa seja a melhor expressão do setor. Se não é assim, a nomeação, para chefiar determinada secretaria, de alguém que não venha dos setores representados atende a interesses de parceria política em que, muitas vezes, tal indicação se apresenta inversamente proporcional a sua capacidade de gerência.

Para não pensarem que certas práticas só ocorrem em Alagoas, cito o recente caso do governador eleito pelo Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (PMDB), que nomeou a ex-miss Brasil Gabriela Markus, 26, como secretária adjunta do Turismo, Esporte e Lazer do Estado por ela “entender de viagens.” Pelo menos, o que a distancia do caso de Alagoas é que a indicada não foi processada nem acusada de corrupção ativa como Mellina Freitas, atual gestora da Cultura de Alagoas, nomeada pelo então governador Renan Filho, também do PMDB.

Como não estão claras as razões pelas quais Mellina foi indicada, mas, considerando-se que pouco relevo têm suas poesias em relação a sua ficha corrida, não nos custa especular a respeito. Resumidamente, pode-se dizer que a primeira lógica disso seria a demonstração do mau entendimento do governo para com sua cultura, já que não compreende que esta secretaria é quem cuida do universo imaterial, do espírito simbólico e cívico dos alagoanos. A segunda, enquanto reação à primeira, é que a nomeação foi providencial para criar o “Mova” e unificar as diversas pautas de interesse do setor cultural sob uma única bandeira, a das “culturas alagoanas”, cuja mobilização não se resumiu apenas às demonstrações de indignação nas redes sociais, havendo também reuniões e tomadas de decisão coletivas.
Nada seria mais republicano: a possibilidade de o governador rever essa indicação e dialogar com os envolvidos com a cena local, para, em comum acordo, entrarem em um entendimento. Deixaria de ser uma vergonha, para se tornar um exemplo de respeito setorial.


*Mestre em Turismo e Hospitalidade pela UCS – Universidade de Caxias do Sul; Produtor Cultural; Cineclubista e Membro-fundador do Coletivo AfroCaeté.


Resistimos pela nossa cultura!

Rossana Marinho [1]

A tarefa de construir o campo cultural alagoano é tocada com bravura, cotidianamente, pelos inúmeros sujeitos que atuam nas várias frentes culturais do nosso estado. Em uma terra de tanta riqueza cultural, faltam políticas que confiram à cultura e seus produtores o devido reconhecimento. Em um cenário onde ainda é frágil a concepção da coisa pública, resistem aqueles e aquelas que, aqui permanecendo, assumem o protagonismo de defender aquilo que nos particulariza enquanto povo: nossa cultura. “Mova”, um coro coletivo, assume a arena pública para nos lembrar que os inúmeros sujeitos que constroem nossa cultura são vozes legítimas para defendê-la e, portanto, reivindicar que a representação política referente a esse campo seja a expressão viva das demandas postas em nossa realidade. Ninguém melhor que esses sujeitos para dizer por quem se sentem ou não representados. “Mova”, porque nossas possibilidades culturais não cabem em arranjos políticos que em nada expressam as demandas coletivas. “Mova”, porque há um coletivo pulsando e lutando por políticas culturais com participação democrática, tão necessárias em nosso estado.


[1] Jornalista e mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).



INSISTA EM ACREDITAR

Tainan Canário [1]

Os militantes culturais são muitos. Não pensem o contrário. Muitos são aqueles que se deixam tocar e sensibilizam-se com a causa. A Cultura, muito embora não receba renda suficiente na distribuição do orçamento do estado, é importante ferramenta de atração turística e parte obrigatória de qualquer revolução educacional que se deseja fazer. Trata-se de uma secretaria cujas ações geram imagem. Por isso é ingenuidade acreditar que não se trata de um cargo cobiçado. O patrimônio cultural alagoano vai da culinária aos folguedos, passa pelo fomento à cultura enquanto ferramenta socializadora. Atividades culturais, em suas formas materiais e imateriais, alimentam a economia, estimulam a visibilidade do estado perante ao Governo Federal e servem de catalisador do avanço que se pretende.
Apoie a causa, corra junto conosco, você pode fazer isso compartilhando a hashtag, assinando a petição e estando presente nas reuniões do MovA. São abertas. Insista em acreditar que se pode mudar um aspecto do seu Estado. Alagoas não tem dono, muito embora alguns insistam em sê-lo pelo cargo que ocupam e o conjunto de privilégios dos quais desfrutam. Nenhum governo ou gestor é perfeito, pode e deve ter a humildade de admitir seus erros.

#ForaMellinaFreitas e fora o que ela representa. Viva a cultura alagoana.
Por uma gestão cultural de ficha limpa e técnica.


[1] Tainan é poeta, professor e escritor.



A SECRETARIA ESTADUAL DE CULTURA E OS ARTISTAS ALAGOANOS

Pedro Onofre de Araújo [1]

Conheci Noaldo Dantas pelas mãos do meu amigo Emanoel Fay, poeta e magistrado. Foi em Paripueira, na casa de praia do deputado Abraão Fidelis de Moura. Enquanto saboreávamos um legítimo escocês 12 anos em garrafão de 3 litros, distintamente oferecido pelo parlamentar. Noaldo confidenciara-me ter sido convidado pelo governador de então, para assumir a Secretaria Extraordinária de Cultura a ser criada naquele começo de 1984. Em Brasília surgira o MINC, confiado ao mineiro Aloísio Pimenta. Em decorrência, os estados da Federação precisariam aparelhar-se para responder à política cultural a ser implementada no país. Noaldo olhou-me e disse: - Estava precisando falar com você, mas não tinha ideia de como Bráulio reagiria! (À época eu estava na FUNTED dirigindo os trabalhos de organização do Museu da Imagem e do Som, à frente de excepcional equipe apaixonada pelo que fazia). - Talvez possamos conciliar a situação! – Respondi. – Com certeza, o presidente não criará dificuldade! – E não criou. Liberou-me para que prestasse assistência ao futuro secretário de Cultura de Alagoas.

Na primeira reunião de trabalho que mantivemos na redação do seu semanário, Noaldo externou a preocupação que o afligia: durante aquele ano não teríamos recursos para quaisquer despesas. O espaço físico e o material necessário seriam custeados pela Casa Civil, mas a equipe a ser formada trabalharia gratuitamente, até a instalação da nova Pasta, mediante Lei, e dotação expressa em orçamento. Mas para que a secretaria Extraordinária se convertesse definitivamente em Secretaria de Estado deveria apresentar até o fim do exercício um Plano de Cultura que lhe justificasse a existência. – E quem irá elaborar esse Plano? - Perguntei. – Você! – Respondeu-me Noaldo. Este é o desafio que transfiro às suas mãos! E não adianta recusar. Seu nome me foi indicado por alguém que confia muito em você... Uma pessoa que jamais errou em seus prognósticos: Joarez Ferreira! (Joarez era jornalista profissional com passagem na grande imprensa do Rio e São Paulo, à época, afastado do jornalismo, por integrar o Ministério Público de Alagoas). Pedi um dia para refletir sobre o assunto. Aquela noite não dormi. O Plano de Cultura ocupava todos os meus pensamentos. Pela manhã já possuía resposta e solução.

Concluí que não deveria simplesmente criar um plano de cultura. Por melhor que o concebesse, não haveria nele legitimidade nem representatividade. A solução seria reunir todos os segmentos artísticos e culturais num grande Fórum, no qual cada um discutisse acerca de sua área, compreendendo dificuldades, anseios e perspectivas de desenvolvimento, difusão e consumo dos bens produzidos... Que igualmente definisse princípios básicos, especialmente em relação à coexistência nem sempre fácil do Estado com a Cultura, determinando-lhe o papel a ser exercido e o limite de sua interferência no SENTIR, PENSAR, E FAZER do cidadão (colunas básicas da Cultura). O Seminário foi realizado com sucesso absoluto. Reuniram-se segmentos do Livro e do Escritor; da Música; da Memória; do Cinema; das Artes Plásticas, das Artes Cênicas e das Artes não elaboradas (lúdicas e artesanais). A Coordenação Geral do Fórum esteve diretamente sob o comando de Noaldo Dantas; o Planejamento e Secretaria, como também a elaboração do Plano tornaram-se minha responsabilidade. Mediaram o Fórum os intelectuais Emanoel Fay da Mata Fonseca, Otávio Cabral e Wolney Leite. Quase uma centena de expressivas figuras das Artes, Letras e atividades conexas, estiveram presentes durante o desenrolar do evento.

No dia 14 de novembro de 1984, o Diário Oficial do Estado publicava em suas primeiras páginas o texto integral do Plano - considerado pelo Ministro da Cultura como “o melhor do país”-, o ato de criação da Secretaria de Estado e a nomeação do titular da Pasta. A administração de Noaldo estender-se-ia daquela data até fins de 1986. Empossado o vice-governador José Tavares, no ano subsequente, artistas e intelectuais postularam indicar os futuros ocupantes dos órgãos de Cultura: o governador José Tavares, homem simples, possuidor de extraordinária visão política, acatou o pleito. Foi tudo muito breve. Contudo... Jamais houve em Alagoas outro período culturalmente mais rico que aquele. Infelizmente, depois, os interesses políticos de pessoas e grupos sem qualquer identificação com a Cultura mudaram os rumos da Secretaria que os artistas e intelectuais ajudaram a construir, tornando-se um órgão dissociado dos fins que o justificaram. Agora, mais uma vez, esses artistas e intelectuais deixam de lado a apatia e a resignação para reivindicar o direito de que um dia dispuseram. Apelam agora para a juventude de um governante que surge no terreno político de Alagoas como uma esperança, e pleiteiam dele a legitimidade de escolher os condutores da política cultural do seu estado. Sinceramente, espero que essa legião de idealistas e sonhadores tenha êxito, e que Renan Filho ainda não se haja impregnado do vírus da materialidade absoluta do poder e se sensibilize em relação à sublimidade imaterial da Cultura como expressão maior da cidadania.


[1] Pedro Onofre de Araújo é dramaturgo, escritor e advogado.


A INDIGNAÇÃO DIANTE DE TÃO GRAVE AFRONTA À ÉTICA

Carla Serqueira [1]

Não devemos ter medo de cobrar o que é justo. O silêncio dos inconformados é o maior aliado da corrupção. Ser passivo é ser conivente. Desde que a ex-prefeita de Piranhas, Mellina Freitas, foi nomeada pelo governador Renan Filho para comandar a Secretaria de Estado da Cultura, algumas vozes se uniram para repudiar tão grave afronta à ética na política, tão escancarada falta de critério na escolha de um gestor público. Em abril de 2013, há menos de dois anos, a secretária foi acusada pelo Ministério Público Estadual de chefiar uma quadrilha de 12 pessoas, funcionárias da prefeitura, que, segundo o órgão, desviou cerca de R$ 16 milhões do município, entre 2009 e 2012, durante o único mandato que ela exerceu na vida.

No processo, o MP pede a condenação da prefeita 385 vezes pelo crime de peculato e 23 vezes por falsificação de documento particular, falsidade ideológica, uso de documentos falsos, fraude em licitação e formação de quadrilha. O dinheiro seria para obras de infraestrutura, mas saiu da prefeitura com ordens de pagamento fraudadas. Na época, a 17ª Vara Criminal só não mandou prender Mellina Freitas porque, sabe-se lá como, ela já tinha em seu favor um salvo-conduto, recurso jurídico expedido pelo Tribunal de Justiça que proibia a prisão da então ex-prefeita. Mellina foi protegida pelo TJ que hoje tem como presidente seu pai, o desembargador Washington Luiz, ex-deputado estadual.

Como agora é secretária de Estado, ganhou o direito de só ser julgada pelo mesmo tribunal que já havia impedido sua prisão e que, desde o início do ano, tem seu pai como chefe maior. Não há nenhuma previsão de quando Mellina Freitas irá sentar no banco dos réus. Ou seja, atolada em denúncias, a ex-prefeita, uma completa estranha do setor cultural em Alagoas, recebe de presente do governador a Secretaria Estadual de Cultura e, com isso, ganha foro privilegiado e mais dinheiro público dos alagoanos para administrar.

Diante de tão expressa bizarrice, a indignação dos inconformados que se recusam a ficar calados fez surgir o Movimento Cultural Alagoano, o Mova. O grupo cresce nas redes sociais, já foi citado em matérias de veículos nacionais, mas é ignorado pela imprensa local. Quando não é ignorado, é atacado. Com o único objetivo de defender a ética na política e a nomeação de alguém íntegro e representativo dos grupos culturais para gerenciar o dinheiro da Secult, o Mova já sofreu até censura. Seus idealizadores deram entrevista ao Instituto Zumbi dos Palmares, órgão de comunicação sob o comando do governo, mas, por ordem superior, o programa nunca foi ao ar. Eis os obstáculos que artistas e incentivadores da cultura alagoana são obrigados a transpor, em pleno século XXI, quando a cultura, além de meio sagrado de expressão, representa abertura de mercado país afora.

Artistas de Alagoas, em vez de receber incentivos para crescer no mercado cultural, são forçados a gastar energia num combate ultrapassado contra a indicação política que cheira a clientelismo, a nomeação de uma secretária com enorme suspeita de corrupção e nada feito pela cultura, e ainda têm que se desvencilhar de boicote e perseguição simplesmente por cobrar o mínimo que se espera de um governo: a garantia de lisura e ética.

Porém, um dos mais perigosos obstáculos continua a ser a apatia de quem conhece bem as mazelas e, por medo da exposição, da retaliação, prefere calar, prefere acreditar que de nada adianta a cobrança, prefere ser omisso e, com silêncio descabido, alimentar o poder da má política. Tenhamos de fato coragem para enfrentar a corrupção, deixemos a zona de conforto, não nos acovardemos, pois gritar #ForaMellinaFreitas é também um jeito de dizer que política nós queremos.


[1] Carla é jornalista e mestranda em Sociologia.


CULTURA NÃO É ACESSÓRIO!

Pedro da Rocha [1]

Faz tempo que a nomeação de quem senta na cadeira do secretário de cultura virou sinônimo de barganha com partidos políticos para atender suas necessidades de cargos ou - quando não - uma concessão faz-de-conta aos artistas e à intelectualidade com o objetivo de, através da honorável figura do gestor da ocasião, ostentar a falsa ideia da existência de uma política cultural.

Para ser preciso, o início dessa prática tem a data de 1987 e o personagem que abre o repertório de secretários-políticos é o do ex-prefeito de Arapiraca João Nascimento, filiado ao PMDB.

Depois disso, nem respeitáveis nomes que por lá passaram, como Jayme de Altavilla, Ranilson França, Diógenes Tenório, Beto Leão e o próprio Enio Lins (atual Secretário de Comunicação) conseguiram disfarçar o que de fato pensam nossos governantes sobre o papel da Secult para o Estado.

Se alguma coisa de surpreendente existe no atual momento, é a falta de surpresas. Trabalhei na Secretaria de Cultura entre 1986 e 1991. Uns poucos anos foram suficientes para que eu testemunhasse - na condição de figurante - mudanças de secretários e diretores, desmonte de equipes técnicas competentes, descontinuidade de projetos e a deterioração da estrutura do espaço da secretaria, que funcionava na Rua Pedro Monteiro.

Ao escolher sua correligionária ex-prefeita de Piranhas para ocupar o cargo de Secretária de Cultura de Alagoas, o governador Renan Filho repetiu seus antecessores, mas surpreendeu e talvez tenha superado a todos pelo inusitado do nome. Como resultado, há uma inesperada visibilidade negativa logo no início de seu mandato.

Uma rápida leitura das poucas notícias veiculadas sobre as perspectivas de atuação da Secult evidenciam sua dependência dos programas federais e o total alheamento da nova gestão quanto à implantação de políticas públicas que atendam às necessidades específicas de vários segmentos que produzem cultura em nosso estado.

Ao ignorar a mediação dos maiores interessados na escolha de um nome coerente para dirigir destinos e projetos para a cultura em Alagoas, o governador aprofunda a distância entre a secretaria, os artistas e os responsáveis pelo que de mais significativo tem acontecido aqui nos últimos anos. Gente e grupos que formam e sensibilizam grandes plateias com produtos culturais de qualidade; gente que, em sua maioria, repudia com os melhores argumentos a secretária nomeada.

Não tenho dúvidas de que há sim vida inteligente ao seu lado. Companheiros que por acomodação, por necessidade ou mesmo por vício minimizam ou ignoram da nova secretária o seu histórico de pendências com a justiça e sua pouca intimidade com o universo da atual produção cultural alagoana.
Mesmo que nosso protesto não alcance o objetivo desejado, não terá sido em vão. Estamos escrevendo um novo capítulo, pintando um novo quadro, projetando uma outra nova cena para a cultura em nosso estado. O protesto de hoje ecoará amanhã e talvez no futuro; em algum momento, o poder público não nos aparecerá tão distanciado dos anseios de seu povo.

E um outro governador não precisará citar em seu discurso de posse o nome de nenhum artista que tenha buscado no exílio a chance que não teve em sua própria terra. Cultura não é acessório.


[1] Pedro da Rocha é cineasta.



POR UMA CULTURA CIDADÃ

Otávio Cabral[1]

Ando tão desgostoso com este estado que já havia decidido me afastar o máximo possível de qualquer atividade; no entanto, o surgimento do MOVA, esse movimento em defesa da cultura alagoana, me deu um novo ânimo. Na verdade, esse ânimo aflorou depois do telefonema da atriz Ivana Iza, por quem tenho o mais absoluto respeito e admiração.

Uma olhada nos subscritores do movimento nos dá uma ideia da abrangência e da inquietude que tomou conta dos artistas e intelectuais e que vem merecendo uma adesão cada vez maior. São pessoas de teatro, de cinema, de dança, de música, fotógrafos, escritores, movimentos étnicos, folclore etc., que assinam e se posicionam como se nessa assinatura estivesse contido um abraço fraterno e apertado na combalida, mas resistente cultura alagoana.

Acredito que depois dos anos de chumbo da ditadura militar, com o retorno ao Estado de direito e a reconquista do regime democrático, a sociedade brasileira pouco a pouco aprendeu a conviver com os contrários e a encontrar no diálogo a melhor forma para dirimir os conflitos e apaziguar os ânimos.
Embora ao longo dos tempos a cultura tenha sido tão negligenciada por parte dos governos, isso não é motivo suficiente para que a categoria se acomode e deixe de exercer seu direito de reivindicar e de cobrar mais respeito e responsabilidade com o segmento.

Vivemos em um estado cujos índices sociais são os mais alarmantes do país e com uma violência campeã na capital alagoana. Vários artistas tiveram suas vidas ceifadas com a impunidade batendo em suas portas; vários jovens já foram retirados de nosso convívio, com a mesma impunidade reverberando aos quatro cantos. Chegou a hora de darmos um basta em tudo isso e gritarmos muito alto que a cultura pode ser e de fato o é, ao lado da educação, do esporte, de uma saúde de qualidade, de um planejamento articulado, e acima de tudo, de uma administração responsável, uma ferramenta de extrema importância para a redução dos índices de violência e para a construção de uma sociedade mais humana, mais fraterna e mais solidária.

Neste sentido, acredito que o setor cultural também está sendo vítima de uma outra forma de violência, quando o governo recém-eleito, cuja campanha transcorreu com o aceno da bandeira da mudança, não exerce a prometida mudança para sentar à mesa e dialogar com a categoria na busca de novos caminhos e da eliminação dos conflitos.

Na verdade, esperamos do governo do estado a compreensão de que uma Secretaria de Cultura só cumprirá de fato o seu papel quando esse mesmo governo entender que a sua ação perpassa todos os demais setores da estrutura governamental e, portanto, só a partir da construção de um Plano de Cultura, voltado para os verdadeiros interesses da sociedade, onde evento não seja a palavra de ordem, mas apenas uma consequência, é que conseguiremos direcionar as ações do segmento cultural para a construção da cidadania.

Espero sinceramente que o governo dito da MUDANÇA se mostre aberto ao diálogo e sente à mesa com os agentes culturais, pois só assim prestará uma enorme contribuição para que não apenas os artistas, mas toda a sociedade alagoana saia lucrando e engrandecida.

[1] Otávio Cabral é ator, poeta e professor da UFAL.

Saiba mais clicando aqui.

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