segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Gostamos de produtos finais e detestamos os processos." Susana Gastal*

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O uso exaustivo da palavra ao longo do atual processo de eleições, me levou a algumas reflexões. Mudança tem na palavra novo o seu equivalente e permite retomar o bordão dos primórdios da Modernidade, quando os artistas, em especial, apregoavam o rompimento com o passado e o que ele significasse, em especial na referência às tradições, fossem elas os hábitos rurais na forma de se alimentar, de se divertir, de produzir cultura e arte. O novo dos modernos viria com rupturas de forma e conteúdo. O rótulo ser novo validava qualquer coisa. Culturalmente foi muito fértil, mas, olhando de hoje, sabemos que os modernos colocaram na lata do lixo muitas expressões sociais importantes, como a arquitetura tradicional, a pintura figurativa e realista, as artesanias, as comidas com terroir, substituídas pelos pratos ditos internacionais, seja lá o que isso significasse.

Então, a presença exaustiva da palavra mudança-novo em tempos recentes no Brasil, talvez signifique que nosso país finalmente alcançou a Modernidade e começa a deixar para trás a cultura colonial dos sinhozinhos, dos doutores e dos processos pré-capitalistas, como a exploração escravagista da mão de obra com salários indignos, tratamento autoritário e o que hoje chamamos de assédio moral, que costumava vir inclusive na forma de piadas de fundo racista e sexista. Ou seja, de processos que levavam ao que a literatura trata como cultura do favor: tenho emprego ou promoção no mesmo pelo favor de alguém (mesmo que eu trabalhe legal), o médico-doutor me atende como um favor (mesmo que eu pague muito bem a consulta), ganho bolsa para estudar porque alguém me apadrinhou/me-fez-um-favor e, nessa situação, devo vassalagem e subserviência a quem me fez tal favor.

Infelizmente, ao que parece, não vamos poder pular a Modernidade, para chegar ao contemporâneo. E, infelizmente, quem chegou ao Brasil moderno dos últimos anos, conseguindo romper com muitos processos arcaicos de fome, de exclusão educacional e social, e de vassalagem, ou seja, que melhorou um pouco de vida, ao descobrir que isso não é um ponto de chegada, mas parte de um processo nascido de uma luta que é diária, permanente e exaustiva, não gosta da situação. E clama pela tal mudança-novo, esquecendo que piorar, também é mudança. Esquecendo que a ascensão social é dura e demorada, mas que o descenso social se dá em um piscar de olhos.

Gostamos de produtos finais e detestamos os processos. Sofremos da síndrome do técnico de futebol: todo brasileiro sabe exatamente o que o time deveria fazer, menos o idiota do técnico que ganha milhões de reais para fazê-lo. Nessa condição, já nascemos feitos: não precisamos de longas horas de estudo, do trabalho duro da pesquisa (mesmo que on line) ou mesmo de processos de treinamento, para ganharmos competência e habilidade em seja lá o que for. Temos opinião, e isso nos basta e empodera, ainda mais se ela for expandida nas redes sociais com o mau humor da ressaca da derrota do time do coração, acompanhada de dois ou três palavrões de recheio. Só que opinião, não ajuda ninguém a viver melhor. Opinião não é um saber, mas um sentimento.

Nossa Modernidade, parece, nos condena a ter que suportar a arrogância deseducada dos vaiantes e o mau humor grosseiro das redes sociais, daqueles que perderam o status de sinhozinhos e do direito de se intitularem doutores porque receberam uma função gratificada em uma repartição pública qualquer, ou daqueles que recém chegaram lá (como se dizia antigamente, quem nunca comeu mingau, quando começa a fazê-lo se lambuza...). Daqueles que emigraram e que se acham ilustrados na nova condição de brasileiros auto expatriados se  auto intitulando como superiores, e que de outras terras desconstroem o País e a nós, brasileiros, que aqui ficamos e assumimos a luta diária de nossa construção nacional. Os eles, lá do alto de seus Olimpos estrangeiros, continuam autorizados a votar nas eleições nacionais e o fazem da maneira mais conservadora possível, pois, desde o lado de lá, são os sabem o que é bom para o país. Então, também eles são arautos do Brasil da vassalagem e da subserviência...

Preferi não colocar essas reflexões nas redes socais, porque estou um pouco descrente das mesmas. Mas, gostaria de compartilhar essas reflexões com algumas pessoas mais próximas, como você. Se você me deu a honra de me acompanhar até aqui, agradeço.  

*Professora Doutora Titular na Universidade de Caxias do Sul. Pesquisadora e Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Turismo na mesma Universidade. Estágio Pós-Doutoral na Universidade Católica Portuguesa (2012-2013). Doutorado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002). Mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995). Graduação em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1974).