terça-feira, 25 de março de 2014

Xangô Rezado Alto - Alagoas

No inicio de 2012 tive a honra de compor a equipe de produção do Xangô Rezado Alto - Centenário do Quebra de 1912 em Maceió - AL. O projeto “Xangô Rezado Alto” é financiado com recursos do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura e conta com contrapartida da UNEAL – Universidade do Estado de Alagoas.



Cosme Rogério Ferreira - Pesquisador da Obra de Graciliano Ramos


                         
Percussionista Wilson Santos, Fundador da Orquestra de Tambores de Alagoas 


O Quebra segundo Rocha Rachel:

O Quebra de 1912, ou “quebra quebra”, é um evento de suma importância para se compreender aspectos racistas da cultura alagoana, ou, ao menos, para indicar pistas na compreensão do que resultou, como comportamento contemporâneo, das práticas de exclusão e intolerância para com o universo da cultura africana, sobretudo a religiosa, em Alagoas.

O episódio aconteceu em 1º de fevereiro de 1912, em Maceió, e consistiu na destruição de todas as casas de culto afro-brasileiro existentes na capital. Não se sabe, ao certo, o número de templos destruídos, nem tampouco quantas pessoas estiveram envolvidas no ato criminoso.

As referências historiográficas sobre o fato são esparsas e todas bebem da mesma fonte, que é a sucessão de artigos publicados na sessão “Bruxaria”, de Oséas Rosas, no já extinto Jornal de Alagoas, dias antes (e depois) do episódio. Historiadores como Sávio de Almeida (no artigo “Por amor à tia Marcelina”), Douglas Apratto (no livro A Metamorfose das Oligarquias) ou cronistas da lavra de Félix Lima Jr. (no livro Maceió de Outrora. Vol.2) relatam aspectos desse evento que teve força suficiente para aniquilar ou ao menos intimidar as práticas religiosas então efervescentes na capital provinciana do início do século XX, e que talvez explique muito da nossa situação atual.

Maceió era então uma cidade pequena, e considerando o papel preponderante da Igreja católica na formação do território alagoano, não é difícil imaginar a existência de uma mentalidade grandemente avessa a práticas religiosas outras que não a católica.

Sabe-se, através da literatura especializada, que o movimento que culminou com a destruição das casas de culto afro em Maceió foi insuflado pela Liga dos Republicanos Combatentes – uma entidade civil com força suficiente para instigar e mesmo levar a cabo atos ilegais como invasão a casas oficiais, tiroteios, intimidações. O contexto político da época precisa ser levado em conta.

Trata-se de um momento em que a oposição, liderada por Fernandes Lima, tenta derrubar do poder a bem estabelecida e consolidada Oligarquia Malta. Euclides Malta, representante máximo da situação, era abertamente associado, pelos oposicionistas, aos cultos africanos e a seus representantes. É um fato que Euclides Malta mantinha boa convivência com os pais e mães de santo, como, aliás, é prática dos políticos em todo o País.

A crônica de Félix Lima Jr. afirma que os terreiros se distribuíam por toda a cidade: de Bebedouro ao Farol, da Ponta Grossa à Pajuçara; de modo que se podia ouvir os tambores tocando em dias de festa em praticamente toda a cidade.

Foi o próprio povo, insuflado pela Liga, que destruiu as casas religiosas. Os terreiros foram invadidos, os objetos sagrados foram retirados dos pejis e queimados em praça pública; pais e mães de santo foram espancados e detratados publicamente.

O que restou desse ato de vandalismo foi reunido e entregue, em tom de deboche, à instituição Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio, e lá ficou durante anos, numa espécie de depósito.

Anos depois, Abelardo Duarte e Théo Brandão recolheram as peças, catalogaram o material e o organizaram, transformando o que escapou do fogo na Coleção Perseverança, de propriedade do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). A coleção encontra-se em exibição no referido Instituto e é constituída por representações antropomórficas dos orixás, assentamentos, instrumentos musicais, jóias, paramentos rituais etc.

É muito importante dar visibilidade a esta coleção, até porque ela é um dos documentos mais importante do Brasil, quiçá da América Latina, sobre a presença negra religiosa no Brasil.

Por Edson Bezerra:

Denominou-se de Quebra, o movimentos de destruição em 1912, de todos os terreiros existentes na cidade de Maceió. Acusados de serem adeptos de Euclides Malta, o qual, durante três mandatos consecutivos – dois de mando próprio e terceiro através de um primo – ocuparia o poder, os praticantes do candomblé tiveram todos os seus terreiros quebrados.

A partir desta data se tornou uma prática comum durante décadas a perseguição e a proibição da prática do Candomblé. Para resistirem, os praticantes do Candomblé passaram a realizarem as suas rezas sem a batida dos atabaques, batendo palmas e as escondidas. Foi esta prática que deu origem a modalidade do que se denominaria de “Xangô rezado baixo”, uma prática única em todo o Brasil. Por ai se entende um pouco os meandros da especificidade da cultura da violência em Alagoas.

 O Quebra, foi um dos mais violentos acontecimentos contra as culturas populares no Brasil, haja visto que não obstante ter sido a prática do Candomblé combatida pelas elites em todo Brasil, em nenhum outro estado se verificou uma perseguição tão sistemática. Durante o Quebra, no espaço de apenas uma semana, de trinta a cinqüenta terreiros de candomblé foram quebrados, os negros presos, insultados, amarrados, humilhados e arrastados pelo centro das ruas da cidade entre choros e ranger de dentes.

Fenômeno de tamanha violência simbólica que ainda hoje revela as suas marcas quando observamos a ausência do Maracatu e o esvaziamento do carnaval de rua como ausências simbólicas do engendramento da especificidade da cultura da violência em Alagoas. Uma das particularidades do Quebra, um intrincado processo político envolvendo facções das classes dominantes e setores marginalizados, é ter sido ele um movimento de negros e mestiços contra negros e mestiços. Ou seja: mestiçagem contra a mestiçagem.

Com Marcos Vasconcelos, Ulisses Neves Rafael e Cadu Ávila no Arquivo Público de Alagoas, dia em que recebi de presente o livro do Ulisses Xangô rezado baixo: Religião e Política na Primeira República
07 de Janeiro de 2014

Mais informações:

Xangô rezado baixo: Religião e Política na Primeira República























A obra analisa os significados da Operação Xangô, levantando detalhes históricos sobre o Quebra de 1912, além de mostrar a situação política e econômica do Estado de Alagoas no momento do episódio.

Pode ser encontrada com o autor Ulisses Neves Rafael clicando aqui

Saiba mais acessando o Blog: http://xangorezadoalto.blogspot.com.br/ 

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