domingo, 22 de setembro de 2013

Canto para uma nova riqueza



“Adeus Alagoas falada terra da prosperidade,
quem nasce nas alagoas não passa necessidade”
Canto Popular de Domínio Público

Este canto popular dos mestres alagoanos pode ter um certo tom de comicidade nos dias de hoje, mas esta frase não seria construída por eles se não houvesse um período que os favorecessem a desenvolver tal interpretação.

Um olhar um pouco mais atento na atual bandeira de Alagoas pode-se perceber a presença de duas touceiras, uma de cana e outra de algodão. A dança entre elas não resultou em algodão-doce, infelizmente. Estes cultivos representam os dois grandes projetos de desenvolvimento econômico para o estado.

O nordeste, que já foi a região mais rica do país, por ser a primeira grande área de colonização tornando-se palco do plantio e da extração de riquezas. A cana processada e transformada em açúcar era vendida a preço de ouro no mercado internacional. A elite que se formou na região sul de Pernambuco possuíam os solos mais férteis e sua defesa nunca foi amistosa. Dirceu Lindoso afirma que o massacre do Quilombo dos Palmares, mais que desmantelar sua organização, teve como principal interesse a posse da terra que ali estava. Os desdobramentos econômicos e culturais deste evento ressoam até hoje. A evolução deste processo que veio dos banguês, forma inicial de processamento da cana, resultou nas usinas como conhecemos hoje. Estas  gozam de incentivos fiscais, sua comercialização não se converte nem em tributos nem riqueza para o estado, o resultado incide como subsidiária dos nossos vexames nacionais. Nunca esqueço uma conversa que tive com Dirceu quando falava da potencial fonte de riqueza que é queimada na colheita da cana, sua palha. Poderia ser perfeitamente aproveitada na industria de celulose, trazendo uma maior dinâmica, emprego e recursos para o estado. Mas cadê o corpo técnico perito? Uma questão a ser resolvida no curso dos acontecimentos.

A elite que se formou em torno da atividade algodoeira imprimia no estado não apenas uma dinâmica agrária, mas comercial e cultural. Segundo Félix Lima Jr. Maceió foi a primeira cidade a possuir energia elétrica do país, com registros anteriores a Belém e Manaus antes da fase áurea do seringal. Essa elite precisava modernizar o escoamento desta produção organizando seu comércio. Quem anda pelo velho bairro Jaraguá e vê Associação Comercial na rua Sá e Albuquerque, pode perceber o quanto eles conseguiram enriquecer o estado. Além de estarem, para utilizar uma linguagem atual, conectados com as inovações tecnológicas acompanhavam suas movimentações culturais, invariavelmente, já que as máquinas inseriam um novo modo de viver a vida. Este projeto acabou junto com o assassinato de Delmiro Gouveia e suas máquinas jogadas ao rio. O que restou foi a soberana cana de açúcar com sabor de novo tipo no mercado – sangue e brutalidade.

A elite triunfante sempre dotou de relações estreitas com o poder central. Retomando Félix Lima Jr. O busto de Dom Pedro II que há em frente a Assembleia Legislativa foi a primeira a ser levantada no país em sua homenagem. Até hoje esta relação vigora, seja com os políticos de esquerda ou de direita, se é que isso ainda existe.

O que quero falar com tudo isso, sabendo que ha uma série de lacunas não expostas aqui. Miséria não acontece por si só, ela se constrói e atende interesses. O percurso histórico por que passou o estado de Alagoas não foi nada tranquilo, o processo civilizatório tá longe de começar, avalie por em prática os ideais da revolução francesa.

O que nos resta não é só reclamar, mas apontar novas possibilidades de inserção do povo nas atividades econômicas e criativas. O estaleiro EISA, que é imperiosa a necessidade de sua ida a cidade de Coruripe. Sua presença estabelecerá uma nova dinâmica relacional no estado. Além de empregabilidade, irá reconfigurar politicamente os interesses, que não deve agradar em nada velhas estruturas. Tá na hora do massacre de vidas e o esmagamento de mentes terminar. Precisamos antenar toda uma população as articulações econômicas principalmente na dinâmica criativa dos capitais culturais, este vem se tornando cada vez mais uma alternativa viável de superação da miséria. Sua mensuração dá um forte indicio da estruturação deste mercado e da liberação de maiores recursos a cada edital lançado pelo poder público e privado. Alagoas pode muito bem voltar vender um bem a peso de ouro no mercado internacional. Temos um estado inteiro de belas potencialidades.

Nunca tive dúvidas que as esperanças sempre devem ser depositadas no povo e é nele que ela continua, ainda que custe uma vida inteira na luta pela esperança de um dia ver no trupé do guerreiro um novo canto sobre a superação desta realidade como se fosse um sonho ruim enquanto dormíamos. É dever de todo alagoano amar seu povo e pensar com ele.


+ Amor, e ações, por favor!

Maracatus de Maceió: Algumas palavras

Coletivo AfroCaeté na comunidade São Jorge em Maceió - AL

Particularmente considero o marco ressurgente do maracatu em Alagoas a Cerimônia de Coração do Rei Doté Elias e da Rainha Lucineide, da Nação do Maracatu Acorte de Airá, no dia 18 de novembro de 2011 na igreja Nossa Senhora Mãe do Povo em Jaraguá. Para justificar acredito que eles possuem todos os elementos constitutivos de um Maracatu. Além da base percussiva, elencam sua relação com a religiosidade ritualística, a utilização dos adornos, figurações, ornamentalidades e demais elementos que constituem o baque virado. Mas antes disso houveram belos rufar de caixas e tambores.

Divulgação

Apresentarei aqui uma pitada da história do novo maracatu que surge em Maceió na atualidade. Mais precisamente sob o enfoque de minha pequena contribuição neste processo, já que se trata de um movimento em curso e conta com muitos agentes. Apresentarei aqui os grupos que surgiram e que continuam impulsionando esta realidade na cidade de Maceió, claro que sabendo que em poucas linhas não dá pra enriquecer de detalhes cada etapa, mas deixarei links de acesso dos grupos que até então constituem esta cena.

O ano era 2007 e eu estava recém-chegado a Maceió depois de uma temporada em Brasília-DF atuando como estagiário na EMBRATUR, quando Christiano Barros, antropólogo e amigo pessoal, fala da oficina de maracatu realizada por Wilson Santos que esta formou um grupo e estavam dispostos a dar prosseguimento aos ensaios, pretendendo se consolidar enquanto equipe musical. Na semana seguinte havia encontrado Wilson e, ousadamente, falei do meu interesse em participar do grupo que estava tomando forma. Como não houve recusa, lá estava nos ensaios sempre as 14h do sábado no estacionamento do CENARTE, próximo a praça dos Palmares. O grupo passou a se chamar Maracatu Baque Alagoano, melhor conhecido como Baque.

As alfaias começaram a circular em maior volume na cidade e seu som começava a seduzir jovens e adultos abertos a novidades artísticas. Neste mesmo período começou as aproximações com as manifestações religiosas ancestrais. As vezes por convite, outras por solicitação de parte do grupo. Citando aqui o inicio das atividades do dia 08 de dezembro da orla de Pajuçara, hoje conhecida como Festa das Águas, e a Lavagem do Bonfim junto ao afoxé Odô Yá no segundo domingo do ano. Também nas prévias carnavalescas do Jaraguá Folia. Como falaria Gilberto Gil “A novidade era o máximo do paradoxo estendido na areia”, Trompetes e alfaias voltaram a fazer carnaval.

A maestria percussiva contou com Wilson até 2008. Entra em seu posto Dalmo Santos que coordena a batucada até hoje. Neste interin, por ser o grupo caracterizado por várias lideranças e várias formas de compreender as dinâmicas culturais, o embate de ideias era inevitável e que é natural nas relações de grupo.

Resultado disso é em 2009 a saída de uma parte dos integrantes do Baque Alagoano, no qual me incluo, e a construção do Coletivo AfroCaeté, que no inicio teve o apoio do DITEAL para ocupar o estacionamento do Teatro Deodoro para seus ensaios aos domingos. Hoje o grupo possui uma sede no bairro do jaraguá e mantém o mesmo dia de ensaio. Novas formas de se organizar e pensar este novo momento estavam na ordem do dia. Em sua constituição estavam universitários, produtores culturais, professores e artistas populares que auxiliavam em pensar a cidade nas suas relações com a cultura, particularmente na periferia. Seminário Múltiplos Olhares sobre a Cultura Alagoana promovido pela Secretaria de Cultura, FUNARTE e UFAL é resultado desta compreensão, como as atividades do Agosto Popular na praça Santa Teresa no Vergel do lago.

No mesmo ano é fundada a Nação do Maracatu Nação Acorte de Airá da Grota do Arroz, coordenado pelo Pai Elias tendo também Mestre Sandro Santana a frente das evoluções percussivas no inicio de suas atividades. A aproximação entre Coletivo AfroCaeté e Acorte não poderia ser diferente.

Para juntar aos grupos aqui expostos, vem mãe Vera entoando seu canto Banto com o Maracatu Raízes da Tradição com jovens do Tabuleiro dos Martins, minimizando sua vulnerabilidade social com atividades artísticas promovidas por ela. A questão dos maracatus estarem nas ruas novamente é expressão de uma nova forma de perceber a e empreender a Cultura Negra em Alagoas que está apenas começando.

Grupos: