quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Paraíso Desrespeito

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Matéria da Gazeta de Alagoas 07/12/2011




“A prática política em Alagoas sempre foi antinegra”
Dirceu Lindoso

A frase, que inicia este pequeno rebuscado, foi proferida por Dirceu em sua palestra, no último dia 30 de novembro, no Museu Théo Brandão, cujo tema "Volkskunde oder Folklore - a crise no folclore alagoano" chama bastante atenção.

Dirceu afirma que o problema folclore já começa na etimologia, pois o termo de origem alemã possui maior abrangência significativa que a mais recente e consolidada nomenclatura inglesa, esta, amplamente difundida pelas escolas de estudos humanos dos países anglo-saxões em suas áreas de influencia no pós-guerra.

Juliana Nicolle, Thiago Bianchetti e Dirceu Lindoso

Não irei reproduzir toda a palestra aqui apenas pontuar algumas considerações e relacionar com recentes acontecimentos na cultura alagoana.

Sobre a crise, problemática que motivou a ida da maioria dos presentes, na ótica de Dirceu afirma que a escola dos folcloristas, mais precisamente da elite intelectual viçosense onde encontra em Théo Brandão sua melhor expressão, sempre tutelou as manifestações populares nas sacadas de suas fazendas. Sempre vista na casa grande como uma manifestação ingênua nas crenças místicas pré-industriais dotadas de adornos característicos a cada compreensão, traduzindo uma europa mítica. Não é difícil fazer uma analogia básica desta referência com o processo de origem e das gestões da ASFOPAL através dos tempos.

Deste modo a ausência de manifestações, onde o traçado indígena e negro em Alagoas fossem mais forte, como maracatus e caboclinhos nem sequer aparecessem nas porteiras das propriedades rurais do interior e da zona da mata.

Mais precisamente as manifestações negras encontram subsídios de suas ações culturais na prática de sua religiosidade, sempre intolerada por aqui. Dirceu afirma que todas as igrejas no centro da cidade de Maceió tinham seus posicionamentos calculados de forma estratégica para diminuir a influencia da religiosidade afro na região. Abelardo Duarte que os maracatus tiveram inicio no século XIX e uma sobrevida de 50 anos em Maceió nos bairros do trapiche, levada e no bairro do farol, chegando a desaparecer completamente no carnaval alagoano. Na atualidade poderíamos ter uma potencia carnavalesca em Alagoas, mas justamente pela recusa, consciente ou não, de incorporar os valores e as heranças culturais do nosso povo temos uma prévia que serve como uma grande despedida para “foliar” em outros ares.

Perguntei a Dirceu o que ele achava do ressurgimento de Afoxés, Maracatus e do recente coroamento do Maracatu Nação Acorte de Ayra, fato significativo para historiografia cultural negra em Alagoas já que este maracatu é o primeiro a ter relação direta com a religiosidade afro depois do Quebra de 1912, sinalizado uma nova fase na organização das manifestações populares do estado. Ele foi enfático em falar da influencia de Pernambuco neste processo, e não adianta entronchar a cara, inclusive em grupos de classe média que atuam na cultura, mas não desconsiderou em nenhum momento sua importância para a comunidade local este momento de ascensão e de organização.

Sem querer aprofundar mais sobre as origens de nosso preconceito racial, social e religioso, como esses pequenos indícios, nos faz perceber que não é de se estranhar a mobilização entre os poderes constituídos para Disciplinar as atividades dos praticantes das religiosidades Afro no ultimo dia 08 de Dezembro no litoral Maceioense, deixando os militantes do movimento negro, percussivo, cultural e artístico, e os praticantes da religiosidade preparados para um possível confronto com a força policial para garantir o exercício da sua liberdade de culto sem o patrulhamento da ordem. Com muita força e poder de articulação foi dada a resposta e nunca a orla da pajuçara foi tão alegre.

Para ver mais fotos do dia 08 de dezembro na orla da pajuçara 

Sobre isso será impetrada uma ação no Ministério Público com a seguinte carta*:

Estamos batendo às portas do Ministério Público Estadual para denunciar um ato de intolerância e preconceito religioso do Secretário Municipal de Controle do Convívio Urbano de Maceió, Sr. Galvacy de Assis, veiculado no dia 8 de dezembro, pela TV Gazeta de Alagoas, no programa Bom Dia Alagoas, contra as manifestações religiosas de matriz-africana realizadas no último dia 8 (oito).

Nessa ocasião foi cerceado o direito consagrado em nossa Carta Magna, no art. 5º, VI, que diz:

“é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.

A violência perpetrada pelo agente público ao delimitar por conta e risco próprios os espaços geográficos, bem como a limitação de horário rígido para o início das celebrações religiosas e seu tempo de duração, indo além no arbítrio e determinando penalidades: se o horário fosse extrapolado, os religiosos teriam os seus instrumentos sagrados “apreendidos e liberados apenas uma semana depois”.

Sr. Procurador-Geral, Dr. Eduardo Tavares, estamos às vésperas do centenário de um dos evento trágicos perpetrados contra as culturas populares ocorridos no Brasil e, pasme o senhor, ocorreu aqui em Alagoas, quando, no dia 2 de fevereiro de 1912, as elites alagoanas destruíram os principais terreiros dos cultos afro-alagoanos, fato que no decorrer dos anos se tornou uma prática comum, gerando entre os afro-descendentes alagoanos traumas de toda natureza, consequência da repressão contínua a que os adeptos dos cultos e seus descendentes foram submetidos (espancamentos, prisões e a quebra sistemática de seus instrumentos de culto), um fenômeno único em todo o Brasil. Diante de sua singularidade, os estudiosos dos cultos religiosos de matriz africana identificaram-no como o Xangô Rezado Alto, prática esta que, enquanto estratégia de resistência, consistia em os religiosos de matriz africana, ao invés de realizarem os seus cultos sobre os ritmos dos atabaques, substituírem-nos pelas batidas das palmas das mãos, visando fugir da perseguição policial e passando a rezar na clandestinidade.

Nesse sentido, Sr. Procurador-Geral, é lamentável que tal fato por pouco não haja se repetido ontem na praia da Pajuçara, pois a Polícia Militar foi instruída a reprimir as manifestações religiosas dos afro-descententes alagoanos caso extrapolassem as determinações do Sr. Galvacy de Assis, referência feita na citada matéria jornalística veiculada na TV Gazeta de Alagoas, pelo Comandante do Policiamento da Capital, Cel. Batinga, a saber, que teriam os seus instrumentos sagrados “apreendidos e liberados apenas uma semana depois”.


O que queremos é denunciar esse ato de intolerância e discriminação religiosa e que a Constituição Federal seja respeitada em Maceió, sendo tomadas as providências cabíveis na forma da Lei.

Maceió, 11 de dezembro de 2011

*Edson José Gouveia Bezerra - Sociólogo
*Geraldo de Majella Fidelis de Moura Marques – Historiador

Sobre o Episódio Golbery Lessa também escreve:

Alagoanos e alagoados, as restrições espaciais que a prefeitura de Maceió propõe para a manifestação dos cultos afro-alagoanos neste dia 8 de dezembro são emblemáticas da falta de sensibilidade cultural da administração da cidade. Maceió é uma cidade tão mestiça, tão miscigenada como qualquer outra urbe brasileira. É um absurdo querer desconhecer ou restringir as manifestações de sua dimensão afro. O senhor prefeito deseja ser conhecido por ter vindo do povo e por dar espaço em sua gestão aos seus problemas, mas o que vemos é que esse povo reivindicado pelo prefeito é um povo inventado e não o maceioense real, é um povo sem especificidade, sem cultura própria, sem iniciativa política, é um povo submisso às elites. Mas o povo real vai se levantar, está ganhando consciência cultural e política, já conta com novos mediadores culturais e políticos, e saberá dar o troco hoje e nos próximos embates, como na eleição do ano que vem. Nem o Quebra do Terreiros, em 1912, conseguiu acabar com a resistência das religiões afro-alagoanas, mesmo que o Xangô tenha passado a ser rezado baixo por décadas. Hoje seria um bom dia para a desobediência civil generalizada às restrições claramente discriminatórias impostas pela prefeitura, hoje seria um bom dia para que a rebeldia atávica do povo alagoano, que já se encarnou em Zumbi e Vicente de Paula, por exemplo, apareça em todo seu esplendor. Que os atabaques toquem alto e que um povo mestiço mostre a riqueza de suas crenças.

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