quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Caminho Lagunar / AL (NE - Brasil)

Por: David Christopher M. de Amorim**
amorim.david@uol.com.br


Recentemente tive o prazer de fazer o Caminho Lagunar, margeando as lagunas Mundaú e Manguaba. Popularmente chamadas de lagoa Mundaú e lagoa Manguaba, as lagunas são assim chamadas por constituírem-se de corpos d’água separados do mar por uma barreira natural (restinga). Elas mantêm um canal de conexão com o mar, recebendo simultaneamente, águas doces, sedimentos dos rios e água salgada do mar, quando das ingressões das marés. Apesar de já conhecer parte do caminho, ficamos surpresos com tamanha beleza, a região é encantadora. Oficialmente participamos da quinta edição do Caminho Lagunar, promovido pela Associação dos Amigos do Caminho de Santiago/AL.




Procuramos fazer observações do Caminho Lagunar, sendo ele fruto de nossa formação. O geógrafo vê nos pontos de interesse: as paisagens, os acidentes topográficos, os cursos de água, observa os falhamentos das rochas, procura analisar os afloramentos, a geração de empregos diretos e indiretos, as pessoas comuns, etc. Já o Turismólogo percebe o ponto passível de interesse como destino turístico requisitado pelo grupo ou consumidor. Avalia as condições de transporte, hospedagem e principalmente a infra-estrutura no sítio ou ponto de interesse turístico. A Associação dos Amigos do Caminho de Santiago/AL vem fazendo um belo trabalho ao longo do Caminho Lagunar, tendo como objetivo maior, estruturar uma rota que sirva de peregrinação ou rota turística entre as cidades de Santa Luzia do Norte e Pilar, embora atualmente o caminho seja feito apenas até a histórica Marechal Deodoro, totalizando um percurso de cerca de 84 km. Em breve o caminho será aumentado.




A peregrinação é uma forma de expressão cultural comum a todas as religiões e momentos históricos. Considerando-se a moderna concepção do termo turismo, podemos afirmar que a peregrinação foi uma das primeiras formas de fluxo turístico. Surgiram no Brasil, a partir do final da década de 1990 algumas rotas de peregrinação com características bastante incomuns, em grande parte inspiradas no Caminho de Santiago de Compostela, assim é o Caminho Lagunar em Alagoas. Saímos de Maceió no dia 8 de setembro, uma quarta-feira por volta das 16:00 com destino a cidade de Santa Luzia do Norte. Na Igreja de Santa Luzia de Siracusa, após a missa recebemos a benção dos peregrinos, e em seguida nos dirigimos até uma pequena pousada local.


Acomodamo-nos e saímos em direção ao nosso jantar, servido num restaurante localizado no alto de uma colina. Após o jantar foi apresentado um grupo infantil de coral e duas adolescentes que mostraram seus talentos com música composta por eles, sobre a preservação da natureza. Voltamos à pousada e pernoitamos. Na quinta-feira dia 9 de setembro acordamos logo cedo, às 6:00 e partimos em direção ao povoado de Riacho Velho, um povoado de remanescentes de quilombolas, mas antes, havíamos saboreado um café da manhã típico, preparado pela Associação dos Quilombolas, comunidade festiva, ainda em Santa Luzia do Norte. O povoado de Riacho Velho se estende na margem do canal do porto pequeno, paisagem calma, colorida, bucólica e bela. O arruado é espalhado no sítio e as casas dos moradores estão entre os coqueirais, com amplos espaços. Na margem do canal há uma pequenina e singela capela, que nos dias de festa movimenta o lugar.




No dia 10 de setembro partimos logo cedo com destino à Barra Nova. Ainda em Riacho Velho fizemos uma travessia de barco até a Massagueira. O que une e separa as Massagueiras de baixo e de cima, é o canal de fora e a estrada AL 101 Sul, respectivamente. Na região da Massagueira de baixo, a paisagem é exuberante e relaxante, chega a inebriar o olhar, com pescadores deslizando mansamente de canoa nas águas do canal.
Estende-se o povoamento para a Massagueira de cima, também chamada de Massagueira velha, seguida da Rua Nova. Percorrer a pé, a rua principal, como foi o nosso caso, é um belo passeio, permitindo observar a beleza do canal, onde se sucedem bares e restaurantes que ofertam a típica culinária regional. Ao anoitecer dormimos numa agradável pousada na Barra Nova, com vista para encontro da laguna Manguaba com o mar, uma paisagem exuberante.




No sábado dia 11 de setembro, o café da manhã foi reforçado, pois a idéia era sair o mais cedo possível da Barra Nova e seguir a peregrinação até a Barra de São Miguel. Tínhamos pela frente mais 22 km. Próximo da pousada fizemos nossa segunda travessia de barco, e seguimos com destino a famosa praia do Francês. Ainda na praia do Francês, almoçamos e seguimos rumo a Barra de São Miguel, talvez este seja o trecho mais complicado do caminho, tendo em vista o longo trecho de areia que separa a praia do Francês da cidade de Barra de São Miguel, mesmo assim tudo ocorreu bem. Pernoitamos na Barra de São Miguel e não preciso dizer que a pousada nos fez muito bem, nos proporcionando o repouso que precisávamos. Veja abaixo todo o trajeto do caminho lagunar traçado em um GPS Garmin 60 Csx.



Último dia de caminhada, dia 12 de setembro e a bela cidade de Marechal Deodoro aguardava-nos. Café da manhã na pousada e ainda faltava cerca de 22 km para o triunfo final. Este último trecho do caminho foi realizado seguindo a antiga estrada entre a Barra de São Miguel e a histórica cidade de Marechal Deodoro. Após 10 km de caminhada chegamos na Cruz de Ferro, que é um local preparado para os caminhantes fazerem sua reflexão, logo que só restam agora poucos km para o final. Após os 12 km restantes, chegamos à matriz de Nossa Senhora da Conceição, todos cansados, porém com muita vontade de seguir adiante, afinal somos caminhantes, peregrinos ou aventureiros, em busca de paz, amizade, e muita natureza.



** Turismólogo e Geógrafo, Especialista em Análise Ambiental
Maceió/ AL - Outubro 2010.

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