quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Desbunde foi alternativa à rigidez da esquerda*



O termo "underground" foi difundido no Brasil pelo jornal "O Pasquim", lançado em 1969. Era esse o título de uma lendária coluna assinada por Luiz Carlos Maciel, que acompanhava a contracultura internacional e seus similares nacionais. Para ser sucinto, o lance girava em torno de sexo, drogas e rock'n'roll. Não necessariamente nessa ordem, e não necesariamente do modo como isso veio a se configurar na atualidade.

Parcelas da juventude norte-americana e internacional viviam nos anos 60 e no início dos 70 no mundo da Era de Aquarius. Queriam mudar tudo pacificamente, criar uma sociedade alternativa, acabar com a guerra e fazer amor livremente. Não era um mau programa. A droga era encarada menos como um vício e mais como uma experiência. Ela ampliaria as possibilidades cognitivas das pessoas e estimularia um processo de libertação mental das convenções caretas e repressivas do sistema.

A substância da hora era o LSD (Lysergic Acid Diethylamide), que vinha sendo experimentada por psiquiatras em tratamento de distúrbios mentais, até que o psicólogo norte-americano Thimoty Leary, doutor de Harvard, a retirou do âmbito médico, acreditando ter descoberto a chave para abrir a consciência humana.

Leary, um sujeito fora do comum, organizava grupos e servia um coquetel de LSD com religiosidade oriental. Em 1966, a droga foi proibida, e Leary, preso.

Ele se tornou uma lenda viva, e a "trip" de ácido, uma espécie de passaporte para ingressar numa nova dimensão, numa nova tribo, numa nova maneira de estar no mundo. Heróis culturais da juventude mundial, dos Beatles a Jimmi Hendrix, experimentaram a viagem lisérgica.

No Brasil, havia uma dramática particularidade: vivia-se sob uma ditadura militar, que entraria em sua fase mais sombria a partir de dezembro de 1968. Intelectuais, políticos e artistas eram perseguidos e presos. Muitos se viam obrigados a deixar o país. Uma das palavras mais pronunciadas na época --e que define bastante bem a atmosfera-- era "sufoco".

Todos estavam no sufoco, mas nem todos da mesma forma. A maior parte da juventude universitária interessada em política e cultura tendia a assumir posições de esquerda, no sentido mais estrito da palavra. A vanguarda dessa turma era formada por militantes comunistas, marxistas-leninistas, trotskistas etc. Muitos decidiram pegar em armas. Era gente corajosa e de fortes convicções, mas frequentemente enquadrada do ponto de vista do comportamento e da moral. Afinal, a classe operária não iria chegar ao poder liderada por "desbundados".

Essa é outra palavra-chave daquele período: "desbundado" era o modo como a esquerda tratava a turma da contracultura, o pessoal que viajava, ouvia Janis Joplin, gostava da "beat generation", fazia filmes em Super-8, não cortava os cabelos e em vez de dramatizar em seus trabalhos a luta de classes preferia perder tempo com temas "alienados", subjetivos ou delirantes.

A conversa era assim: dois amigos de esquerda se encontravam. Um perguntava: "E fulano, tem notícias dele?". E o outro: "Fulano desbundou. Foi morar num sítio com uma comunidade, fica ouvindo rock e está traduzindo o Livro Tibetano dos Mortos".

Claro que esquerda e desbunde não deixavam de ser duas faces da mesma moeda --e muitos chegaram a encarná-las simultaneamente, como Glauber Rocha (como se pode conferir em "Glauber o Filme, Labirinto do Brasil", nos cinemas).

A contracultura foi um episódio no qual se cruzaram diferentes trajetórias e interesses, com desdobramentos que chegaram à década de 80, em parte catapultados pela rebeldia punk de 78. No Brasil, por ela passaram nomes como Waly Salomão, Hélio Oiticica e Rogério Sganzerla --e dela derivaram diversas produções alternativas, da poesia marginal a grupos de rock e teatro. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, era visto como uma espécie de herói precursor do underground. E não se pode esquecer de José Simão --que poderia contar essa história melhor do que eu, ele que dava seus rolês ao lado de Gal Costa pelas "dunas do barato", a faixa de areia mais desbundada da Ipanema dos anos 70.

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
Editor de Opinião da Folha de S.Paulo
21/03/2004 - 06h35

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