sábado, 26 de junho de 2010

Manifesto Sururu e o Turismo Alagoano*



“Novas rotas. Rotas alagoanas: de canais e lagoas, sobretudo”
Manifesto Sururu



Na década de setenta agressivas campanhas de marketing começaram a vender o nordeste sob o slogan “Conheça o Nordeste” destacando como o leit-motiv, o Sol e Mar da região. Acompanhando a tendência da época onde se destacavam roteiros paradisíacos – as Ilhas Canárias, Riviera del Fiori, etc. - além de balneários em Acapulco, Ibiza e ilhas da América Central, muitas destas colônias de países imperiais. Como resultado da implantação daquele modelo, o nordeste se transforma no grande sonho de consumo da classe média em ascensão no país, tornando em pouco tempo o litoral alagoano, especialmente as praias urbanas de Maceió, em destaque nacional por sua cor e temperatura. Com a construção do Hotel Jatiúca, em 1979, onde os turistas, constituindo sua principal fatia de visitantes paulistas, muitas vezes vinham apenas para ficar ali “enfornados”. Hospedar-se ali se tornara símbolo de status, era Hype. É situando esse contexto que o Manifesto Sururu afirma :

“Mas aconteceu que Maceió fugiu da mundaú. Pensou que a lama e os caranguejos e os homens-caranguejos iam engolir ela!!!! A nossa Aristocracia com medo e nojo fugiu do barro – e fugiriam também da zoadas dos batuques, do coco e das macumbas e foram morar lá na banda das praias: Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca. E naquelas praias há pouco desertas, no lugar dos casebres e casas de paus a pique, foram montados os edifícios e as luminárias elegantes da cidade. E as águas do mar são diferentes das águas da lagoa.”

O segmento de sol e mar se configura como a principal atividade do turismo de massas, o qual, se não bem planejada pode se tornar o mais predatório de todas as práticas turísticas existentes, ocasionando impactos socioeconômicos arrasadores como a especulação imobiliária, poluição visual e sonora, contaminação de lençóis freáticos e as não-estranhas línguas negras, potencializada com o crescimento desordenado de construções e empreendimentos sem a devida fiscalização, estas que já fazem parte do dia-a-dia dos maceioenses. No campo social, Krippendorf já nós alerta para esta problemática:


“Quanto menor for o desenvolvimento da região (turística) receptora maior será a intensidade dos efeitos negativos socioculturais resultantes deste fluxo na população local.”


Entre eles a segregação cultural através do encontro dos “have” com os “have-not.”.

A cada dia a imagem associada a Alagoas como destino possuidor de cenários paradisíacos vem se fortalecendo. Nessa consolidação, há o empenho do conjunto de empresários e ações governamentais para a captação de turistas e fixação de uma imagem.

Situando tais coisas o Manifesto Sururu contribui na discussão, alertando-nos sobre a necessidade de ressignificação do turismo alagoano. Como nosso principal apelo para a vinda de turistas e visitantes são nossas praias e com ela todas as conseqüências de uma atividade de turismo de massa, a inserção de um novo fazer turístico ressaltando os valores e bens culturais alagoanos aparece como alternativa a estes impactos, já que criaríamos a possibilidade de ampliar a participação dos setores populares e artísticos locais, cumprindo assim a velha promessa da atividade enquanto forte fator de distribuição de renda .
Qual visitante não ficaria fascinado com os brilhos, as cores do nosso Guerreiro, o pôr do sol no Pontal da Barra sob o legado do Mestre Isaldino e seu Fandango nas margens da Lagoa Mundaú?
Em Cancun, no México, os turistas muitas vezes saem do circuito oficial para conhecer o estilo de vida dos funcionários dos equipamentos de hospedagem da região. Ao invés dos luxuosos bares, muitos vão para as bodegas onde os habitantes nativos se confraternizam.

Como as mudanças não ocorrem por decreto, nem por boa vontade, esta é à hora dos intelectuais, setores produtivos, artistas plásticos, mestres populares, historiadores, organizações não governamentais, universitários, músicos, começarem a articular um movimento estético-artístico-cultural constituindo e reafirmando esta nossa identidade, assim como o sururu, está nas entranhas de nossas lagoas, arraigados no modo de ser de nossa gente e transformar isso em cores e festividade. Como falaria Gastal:

“A Cultura passará a ser veículo de socialização entre visitantes e visitados, quando esta for um processo vivo de um fazer de determinada comunidade”

Agora sob qual forma isso se desenvolverá em Alagoas? Acredito que renderão muitos Manifestos...



*Escrevi este texto há alguns anos enquanto discutia-se na Cidade de Maceió o  Manifesto Sururu, escrito por Edson Bezerra em 2004. Achei importante colocar este texto não só pela retomada das atividades deste espaço, mas tambem pela atualidade da pauta já que pouca coisa tem sido feita no sentido em que o texto se posiciona.

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