segunda-feira, 28 de junho de 2010

Riacho Doce recebe projeto que valoriza o turismo com a cultura local‏




Uma das grandes tendências do turismo mundial, o de base comunitária, vem sendo implementado pelo Instituto Magna Mater (IMM) - dedicado a promover ações nas áreas de turismo, cultura e meio ambiente - numa comunidade de uma das mais belas praias de Alagoas. O projeto Tramas em Riacho Doce tem por objetivo capacitar a comunidade para o atendimento e um melhor aproveitamento da oferta turística; a criação de serviços associados; a venda dos seus produtos; o planejamento do uso sustentável de seu território; a promoção da sustentabilidade econômica e cultural local e o enriquecimento do destino turístico, com um roteiro diferenciado.


O “Tramas” é um projeto que nasceu de uma iniciativa pioneira do Ministério do Turismo (MTur), por meio do Departamento de Qualificação, Certificação e de Produção Associada ao Turismo (DCPAT), da Secretaria Nacional de Programas de Desenvolvimento de Turismo (SNPDTur), e em Alagoas é o único projeto, dos 50 selecionados no Brasil, em desenvolvimento.


“O edital de seleção de projetos de base comunitária foi um grande sucesso, com 518 propostas recebidas e mais de sete mil acessos ao edital”, disse a diretora do Departamento de Qualificação, Certificação e Produção Associada ao Turismo, Regina Cavalcanti. “Isso mostra um duplo acerto. Primeiro: as iniciativas de organizar a produção, distribuição e consumo das atividades turísticas de forma associativa têm crescido e estão em consonância com a diretriz de desenvolvimento local com inclusão social do Plano Nacional de Turismo. O segundo acerto é que as chamadas públicas resultam em maior visibilidade e democratizam as formas de acesso aos recursos públicos”, acrescentou Cavalcanti.


O turismo de base comunitária, turismo comunitário solidário de conservação entre outras denominações, possui elementos comuns a tais iniciativas e busca a construção de um modelo alternativo de desenvolvimento turístico, baseado na autogestão, no associativismo/cooperativismo, na valorização da cultura local e, principalmente, no protagonismo das comunidades locais, visando à apropriação por parte destas dos benefícios advindos do desenvolvimento da atividade turística.


As experiências de vários países como o Equador, o Peru e, principalmente a rede TUSOCO da Bolívia, apontam a possibilidade de desenvolver-se a atividade turística em um modelo em que as comunidades locais participam ativamente do planejamento, da execução e do monitoramento das atividades turísticas e conseguem gerar renda complementar e desenvolvimento socio econômico. A atuação de operadores turísticos especializados, com destaque aos europeus, também demonstra o potencial deste nicho turístico.


No Brasil, há casos considerados de turismo comunitário em estados como Ceará, Amazonas, Pará, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Algumas destas iniciativas estão reunidas em uma rede informal denominada TuriSol - Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário.


A atividade turística possui reconhecida importância econômica, conforme levantamento realizado pela Organização Mundial do Turismo, que apontou o setor como o terceiro no mundo em termos de geração de divisas. Espera-se que em 2010, um em cada dez empregos seja criado no setor que é o quinto maior gerador de divisas do Brasil. No entanto, se por um lado as atividades relacionadas ao turismo têm potencial de promover o crescimento, por outro são conhecidos os impactos causados principalmente no que diz respeito à cultura local e preservação do meio ambiente.


A comunidade de Riacho Doce já possuía uma certa experiência com associativismo e desenvolvimento de projetos, mas não com o conceito de economia solidária e com a preocupação da inserção no mercado. Assim, em parceria com a Associação de Pescadores e Marisqueiros de Riacho Doce e o Instituto da Melhor Idade (IMI) , o Tramas em Riacho Doce vem garantindo a participação da comunidade no planejamento, na execução e na administração do mesmo.


Tudo isso tornou Riacho Doce interessante para o desenvolvimento de um projeto de Turismo de Base Comunitária, onde o modo de vida da comunidade é um dos atrativos, por apresentar práticas e técnicas artesanais, passadas de geração em geração, seja na gastronomia, no bordado ou na pesca e que são generosamente disponibilizados aos visitantes. São histórias e saberes que só a tradição oral e o contato com a natureza ensinam. “Esse projeto é muito mais do que capacitar “mão de obra”. Ele vai proporcionar uma interação entre o turista e a comunidade de uma forma diferenciada, que hoje atrai cada vez mais adeptos no mundo, criando novas alternativas de geração de renda para as rendeiras, as quituteiras, os pescadores e os jovens de Riacho Doce, explicou Patrícia Mourão, diretora executiva do IMM.


O “Tramas” é realizado pelo Instituto Magna Mater com o apoio do Ministério do Turismo, e conta com parcerias do SEBRAE/AL, da Associação dos Pescadores e Marisqueiros de Riacho Doce e Instituto da Melhor Idade Doce Vida (IMI) e funciona da seguinte forma: junto com os pescadores, rendeiras, quituteiras e jovens informantes turísticos, através de oficinas, cursos, palestras e visitas em campo, a comunidade está se preparando para oferecer vivências em pesca, artesanato e gastronomia, promovendo uma integração sociocultural com o turista, que poderá ter um roteiro que incluirá opções de visitas a uma casa de farinha acompanhando todo o processo de preparação dos doces; às casas das bordadeiras, onde o visitante terá a oportunidade de conhecer e aprender como bordar o tradicional filé de Riacho Doce; além de passeios de jangada para pescar.


As visitas devem ser agendadas com antecedência de pelo menos 24 horas, a partir do mês de julho, pelos telefones : (82) 9654-0040 ou 9654-0039.

Riacho Doce


Riacho Doce está inserido na APA Costa dos Corais distante cerca de 10 km do centro de Maceió, margeandoa rodovia AL-101 e nasceu de um arraial de pescadores, que até hoje exercem essa atividade. As mulheres, em torno de 40 anos, seguem o ditado popular “onde tem rede, tem renda” e são famosas pelo seu artesanato e pelos quitutes que produzem e vendem à beira da estrada que liga a capital a Maragogi, principalmente nos finais de semana, quando o movimento é mais intenso. Elas se desdobram na casa-de-farinha, fazendo beiju, tapioca, pé-de-moleque e outras guloseimas, numa arte centenária, herdada de mãe para filha.


Além de localizado perto da orla de Maceió, onde há a maior concentração de hotéis e restaurantes do Estado (além de todos os outros serviços turísticos), Riacho Doce possui vários restaurantes, onde são oferecidos pratos típicos da culinária alagoana, além de várias pousadas e hotéis à beira-mar. Na parte alta, está a casa onde nasceu o ex-presidente Floriano Peixoto. Entre as festas estão a da padroeira Nossa Senhora da Conceição, em dezembro, nas qual os fiéis saem em procissão, com a imagem da Virgem Imaculada Conceição.


Nos anos de 1930, o escritor paraibano, José Lins do Rego, encantado com toda beleza, escreveu Riacho Doce, um dos maiores best sallers do país, que levou a TV Globo a produzir um seriado em 1990.
Projeto Tramas em Riacho Doce


 
Instituto Magna Mater (IMM)


 
Contatos: (82) 9654-0040 ou 9654-0039


 
Serviço:


 
Projeto Tramas em Riacho Doce


 
Instituto Magna Mater (IMM)


 
Contatos: (82) 9654-0040 ou 9654-0039


 


 
Fonte:


 

sábado, 26 de junho de 2010

Manifesto Sururu e o Turismo Alagoano*



“Novas rotas. Rotas alagoanas: de canais e lagoas, sobretudo”
Manifesto Sururu



Na década de setenta agressivas campanhas de marketing começaram a vender o nordeste sob o slogan “Conheça o Nordeste” destacando como o leit-motiv, o Sol e Mar da região. Acompanhando a tendência da época onde se destacavam roteiros paradisíacos – as Ilhas Canárias, Riviera del Fiori, etc. - além de balneários em Acapulco, Ibiza e ilhas da América Central, muitas destas colônias de países imperiais. Como resultado da implantação daquele modelo, o nordeste se transforma no grande sonho de consumo da classe média em ascensão no país, tornando em pouco tempo o litoral alagoano, especialmente as praias urbanas de Maceió, em destaque nacional por sua cor e temperatura. Com a construção do Hotel Jatiúca, em 1979, onde os turistas, constituindo sua principal fatia de visitantes paulistas, muitas vezes vinham apenas para ficar ali “enfornados”. Hospedar-se ali se tornara símbolo de status, era Hype. É situando esse contexto que o Manifesto Sururu afirma :

“Mas aconteceu que Maceió fugiu da mundaú. Pensou que a lama e os caranguejos e os homens-caranguejos iam engolir ela!!!! A nossa Aristocracia com medo e nojo fugiu do barro – e fugiriam também da zoadas dos batuques, do coco e das macumbas e foram morar lá na banda das praias: Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca. E naquelas praias há pouco desertas, no lugar dos casebres e casas de paus a pique, foram montados os edifícios e as luminárias elegantes da cidade. E as águas do mar são diferentes das águas da lagoa.”

O segmento de sol e mar se configura como a principal atividade do turismo de massas, o qual, se não bem planejada pode se tornar o mais predatório de todas as práticas turísticas existentes, ocasionando impactos socioeconômicos arrasadores como a especulação imobiliária, poluição visual e sonora, contaminação de lençóis freáticos e as não-estranhas línguas negras, potencializada com o crescimento desordenado de construções e empreendimentos sem a devida fiscalização, estas que já fazem parte do dia-a-dia dos maceioenses. No campo social, Krippendorf já nós alerta para esta problemática:


“Quanto menor for o desenvolvimento da região (turística) receptora maior será a intensidade dos efeitos negativos socioculturais resultantes deste fluxo na população local.”


Entre eles a segregação cultural através do encontro dos “have” com os “have-not.”.

A cada dia a imagem associada a Alagoas como destino possuidor de cenários paradisíacos vem se fortalecendo. Nessa consolidação, há o empenho do conjunto de empresários e ações governamentais para a captação de turistas e fixação de uma imagem.

Situando tais coisas o Manifesto Sururu contribui na discussão, alertando-nos sobre a necessidade de ressignificação do turismo alagoano. Como nosso principal apelo para a vinda de turistas e visitantes são nossas praias e com ela todas as conseqüências de uma atividade de turismo de massa, a inserção de um novo fazer turístico ressaltando os valores e bens culturais alagoanos aparece como alternativa a estes impactos, já que criaríamos a possibilidade de ampliar a participação dos setores populares e artísticos locais, cumprindo assim a velha promessa da atividade enquanto forte fator de distribuição de renda .
Qual visitante não ficaria fascinado com os brilhos, as cores do nosso Guerreiro, o pôr do sol no Pontal da Barra sob o legado do Mestre Isaldino e seu Fandango nas margens da Lagoa Mundaú?
Em Cancun, no México, os turistas muitas vezes saem do circuito oficial para conhecer o estilo de vida dos funcionários dos equipamentos de hospedagem da região. Ao invés dos luxuosos bares, muitos vão para as bodegas onde os habitantes nativos se confraternizam.

Como as mudanças não ocorrem por decreto, nem por boa vontade, esta é à hora dos intelectuais, setores produtivos, artistas plásticos, mestres populares, historiadores, organizações não governamentais, universitários, músicos, começarem a articular um movimento estético-artístico-cultural constituindo e reafirmando esta nossa identidade, assim como o sururu, está nas entranhas de nossas lagoas, arraigados no modo de ser de nossa gente e transformar isso em cores e festividade. Como falaria Gastal:

“A Cultura passará a ser veículo de socialização entre visitantes e visitados, quando esta for um processo vivo de um fazer de determinada comunidade”

Agora sob qual forma isso se desenvolverá em Alagoas? Acredito que renderão muitos Manifestos...



*Escrevi este texto há alguns anos enquanto discutia-se na Cidade de Maceió o  Manifesto Sururu, escrito por Edson Bezerra em 2004. Achei importante colocar este texto não só pela retomada das atividades deste espaço, mas tambem pela atualidade da pauta já que pouca coisa tem sido feita no sentido em que o texto se posiciona.