quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Manifesto das Sete Artes - 1912 - Fragmentos


I

A teoria das sete artes, tal qual, pela primeira vez, eu pude expor no Quartier Latin, há três anos, ganhou o terreno de todas as lógicas e se propaga no mundo inteiro. Na confusão total dos gêneros e das idéias, ela trouxe uma precisão de fonte reencontrada. Eu não me orgulhava dessa descoberta, toda teoria comportando o achado do princípio que a rege. Eu constato nela a influência, assim como, nela a afirmando, eu constatava a necessidade.

Se os inúmeros e nefastos negociantes do cinema acreditavam se apropriar da palavra “Sétima Arte”, que reerguia imediatamente o sentido de sua indústria e de seu comércio, eles não aceitaram a responsabilidade imposta pela palavra Arte. Sua indústria é a mesma, mais ou menos bem organizada no ponto de vista técnico; seu comércio é alternadamente emergente ou medíocre, segundo o aumento ou a baixa da emotividade universal. (...) Mas essa arte de total síntese que é o Cinema, esse recém-nascido fabuloso da Máquina e do Sentimento, começa a cessar seus balbucios, entrando na infância. Sua adolescência virá, logo mais, captar sua inteligência e multiplicar seus sonhos; nós demandamos uma aceleração de seu desabrochar, uma rapidez na chegada da sua juventude. Nós precisamos do Cinema para criar a arte total para a qual todas as outras, desde sempre, convergiram.

II

E eis onde será preciso uma vez mais explicar, rapidamente, a teoria que os meios esclarecidos estudam... sob o nome de “Teoria das sete artes”. A fonte reencontrada nos a revelou na sua limpidez. Nós vemos aí que duas artes, em realidade, surgiram do cérebro humano para lhe permitir fixar toda a fugacidade da vida, lutando assim contra a morte dos aspectos e das formas e enriquecendo da experiência estética as gerações seguintes. Tratava-se, no alvorecer da humanidade, de aperfeiçoar a vida a elevando fora das realidades efêmeras, nela afirmando a eternidade das coisas cujos homens se emocionavam. Queríamos criar lares de emoção capazes de propagar em todas as gerações o que um filósofo italiano chamou “o esquecimento estético”, quer dizer, a profunda satisfação de uma vida superior à vida, de uma personalidade múltipla que cada um pode se dar fora e dentro de sua própria personalidade.

Na minha Psicologia Musical das Civilizações (1908), eu já notava que a Arquitetura e a Música tinham formulado imediatamente essa necessidade inexorável do homem primitivo, que buscava “fixar” todas as potencialidades plásticas e rítmicas de sua existência sentimental. Fabricando sua primeira cabana, e dançando sua primeira dança com o simples acompanhamento da voz que cadenciavam os batimentos dos pés sobre o solo, ele havia encontrado a Arquitetura e a Música. Em seguida, ele embelezava a primeira das figurações dos seres e das coisas dos quais ele queria perpetuar a lembrança, ao mesmo tempo ele acrescentava à Dança a expressão articulada de seus sentimentos: a fala. De tal modo, ele havia inventado a Escultura, a Pintura e a Poesia; ele havia acurado seu sonho de perpetuidade no espaço e no tempo. O Ângulo estético se colocou desde então diante de seu espírito.
(...)

III

(...)
Ora, ele, Nosso tempo, incomparável de vigor interior e exterior, de criação nova do mundo interior e exterior, de produção de potencialidades até nós insuspeitas: interiores e exteriores, físicas e religiosas -, Nosso tempo sintetizou, através de um élan divino, as múltiplas experiências do homem. Nós somamos todos os elementos da vida prática e da vida sentimental, nós casamos a Ciência e o ideal da Arte, os aplicando numa e noutra para captar e fixar os ritmos da luz. É o Cinema.
A Sétima Arte concilia assim todas as outras. Telas em movimento. Arte Plástica se desenvolvendo segundo as normas de Arte Rítmica.

[esquema III]

Eis o lugar (C) na prodigiosa alegria que o instinto de sua perpetuidade vem conceder ao homem moderno. As formas e os ritmos, o que se nomeia a Vida, brotando dos golpes de manivela de um aparelho de projeção.

Nós vivenciamos a primeira hora da nova Dança das Musas em torno da juventude de Apolo. O CÍRCULO DAS LUZES E DOS SONS EM TORNO DE UM INCOMPARÁVEL LAR: NOSSA ALMA MODERNA.

Ricciotto Canudo

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dogma 95 - 1995


O Dogma 95 é um movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995 em Copenhague, na Dinamarca.

As regras do Dogma 95, também conhecidas como “voto de castidade”, são:

1 - As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
2 - O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
3 - A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
4 - O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5 - São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6 - O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, Sexo, etc. não podem ocorrer).
7 - São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
8 - São inaceitáveis os filmes de gênero.
9 - O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
10 - O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Regras acrescentadas por Lars Von Trier em 2005:

- A gravação deve ser feita em formato digital.
- As filmagens devem ocorrer na Escócia.
- As filmagens não podem ultrapassar o prazo de 6 semanas.
- O custo total do filme não pode ultrapassar a quantia de um milhão de libras esterlinas.